30/04/16

Creepypasta dos Fãs: Glutoneria

Carne enlatada, vegetais, ração, plantas; inclusive sobras das minhas refeições. Eu tentei de tudo e ainda não sabia como alimentá-la. Ela rejeitava tudo que eu oferecia, chutava o prato para longe e às vezes até cuspia na comida. A cada dia que passava, ela ficava mais magra e desnutrida, contribuindo para que eu ficasse louco de preocupação.

Eu estava desnorteado, até certo dia descer ao porão e flagrá-la alimentando-se de um gato. O desafortunado felino deve ter entrado no recinto empoeirado por alguma das pequenas janelas e encontrou um destino trágico nas mandíbulas dela. Então eu finalmente compreendi o que realmente agradava seu paladar.

Desde aquele dia, habituei-me a trazer para ela alguns gatos que eu capturava pela vizinhança, mas de início, ela não gostou muito. O fato é que ela preferia devorar filhotes, ainda vivos. Conforme ela comia os pequenos animais, ficava menos anêmica e desnutrida. Só depois de uma semana que ela começou a nutrir um gosto por gatos já adultos.

Fiquei muito aborrecido da vez em que fui levar para ela um siamês adulto com as patas amarradas. Quando cheguei ao porão e liguei a lâmpada, vi que ela já estava devorando um rato cinzento e velho.

Eu gritei com ela, tentando fazê-la entender como era difícil capturar os gatos da vizinhança sem ser visto, mas eu só recebia grunhidos como resposta. Mesmo ela não tendo demonstrado qualquer sinal de compreensão, eu lhe entreguei a refeição e posteriormente não desci ao porão por dois dias inteiros.

Admito que fiquei bastante preocupado durante as noites em que não a visitei, mas ela teria de aprender a ter empatia e consideração pela mão que a alimentava, fosse pelo amor ou pela dor.

Repentinamente, ouvi sons de engasgamento e asfixia na terceira noite e corri para o porão para ver o que se passava naquele mausoléu empoeirado. Ela parecia estar quase regurgitando algo e golpeava fortemente a coleira pela qual estava presa. Agachei-me ao seu lado e retirei a coleira pesada de seu pescoço. Naquele momento, estava presa apenas às correntes amarradas aos seus pés.

Ela pôs a mão sobre o abdômen e finalmente regurgitou. Seu vômito trazia consigo secreções asquerosas, sangue e os restos do que antes eram gatos e ratos vivos.

Tive a oportunidade de observá-la melhor quando retirei os tecidos sujos que cobriam seu corpo imundo e ferido. Incrivelmente, eu notei que em nenhum momento ela havia defecado. Depois de terminar de vomitar, ela me encarou com olhos tristes e carentes enquanto murmurava sons animalescos e sem sentido.

Naquele momento, uma tristeza pesada assolou meu coração, pois senti pena dela, sozinha e aprisionada em um lugar miserável. Ela merecia compaixão e até muito mais do que isso. Eventualmente, para satisfazê-la, nos beijamos e transamos como animais selvagens durante toda a madrugada. Em seu mais intenso orgasmo, seu corpo regozijou tremulamente em um êxtase sobrenatural e seus gemidos roucos e animalescos pareciam ser uma obra-prima da natureza oculta sobre sua pele lodosa e repleta de fungos e feridas, fazendo até balançar as teias de aranha sobre nossos corpos nus.

Para minha infelicidade, nosso sexo foi interrompido quando, em um surto de excitação, ela cravou os dentes podres e afiados em meu ombro. Com o susto, eu recuei e retornei a prendê-la à coleira. Abandonei o porão com o ombro esquerdo sangrando e ardendo excruciantemente.

Passei o resto da noite sem conseguir dormir e lembrando o sorriso malicioso que marcou o rosto dela quando percorreu seus lábios ensanguentados com a língua. Ainda tenso e aborrecido, saí para fumar e sentei-me na calçada de casa, às 05h. Posteriormente, capturei um cachorro meio doente que descansava debaixo de uma árvore no final da rua.

Ela adorou a surpresa. Devorou o animal como se fosse um banquete soberbo. Ao término da refeição, gemeu como se tivesse tido um orgasmo e vomitou os restos do cão.

Depois daquele banquete, ela passou a rejeitar gatos. Seu paladar estava se tornando mais refinado e exigente. Eu soube que estaria encrencado, pois satisfazer sua gula seria muito mais difícil, uma vez que cada vez mais ela exigiria algo maior.

E do mesmo jeito, ela continuava a vomitar por todas as noites. Não conseguia digerir por completo suas refeições e regurgitava de volta tudo que empurrava garganta abaixo. Eu estava ficando um pouco irritado com o fato de que ela devorava e expelia de si os animais por pura diversão. O que despertou minha curiosidade foi como ela estava ficando cada vez mais forte e corpulenta.

Mas o que me incentivou a tomar nota destes acontecimentos foi a noite em que eu lhe trouxera um filhote de porco ainda vivo, pois esta era a única condição que a fazia aceitar os banquetes.

Eu empurrei o animal na direção dela enquanto o suíno emitia um guincho de pavor e resistia com todas as suas forças. Ela agarrou o animal com uma voracidade tão grande que acabou devorando a metade meu dedo anelar no processo.

Meu grito ecoou por todo aquele recinto bolorento. Eu a amaldiçoei enquanto ela apenas se preocupava em saborear a refeição para posteriormente vomitá-la. Subi diretamente para o banheiro e tratei do meu dedo mutilado.

Passei dias sem visita-la desde então. Retornei ao porão apenas quando achei necessário e tive uma surpresa que me gelou a alma.

Ela não estava mais lá. A coleira e as correntes que antes prendiam suas pernas haviam sido arrancadas da parede de concreto, e no chão, jazia o porco mutilado e regurgitado. Entre os restos mortais do suíno brutalmente moído, estava a outra metade do meu dedo anelar, um pouco mastigado.

Eu segui uma trilha do que parecia ser vômito até que a mesma terminasse no meu quarto, especificamente debaixo da cama. Agachei-me e me deparei com a visão dela deitada sob o móvel como um cão.

E debaixo da cama, ela gargalhava como uma hiena rouca, mas não me ofereceu perigo. Prometi mantê-la lá mesmo, aonde provavelmente ela sentia-se mais confortável e segura sem aquelas correntes. Nas noites seguintes, continuei a lhe trazer cães, mas ela os rejeitava, além de rejeitar tudo mais que eu lhe oferecia.

Em certa noite, acordei por causa de uma dor ardente na mesma mão que havia sido mutilada pelos dentes animalescos dela. Quando liguei a luz do abajur e verifiquei, um calafrio percorreu todo meu corpo.

Meu dedo médio e indicador haviam sido completamente arrancados da minha mão. Em uma sincronia horrenda, ela vomitou os dois dedos para fora da parte de baixo da cama no mesmo momento em que eu gritei de dor e espanto. Foi naquela noite que percebi que, mesmo sem a intenção de fazê-lo, eu havia criado um monstro e possivelmente, um perigo para a vizinhança.

Por fim, é por estes acontecimentos que eu tenho escrito estas notas. Por não saber quanto tempo de vida ainda tenho e por não conseguir imaginar o que ela faria se eu a abandonasse. Espero que, se algo de ruim me acontecer, alguém encontre estas anotações que deixarei sobre a cama e alerte a vizinhança o mais rápido possível.

Vou me trancar no banheiro e tentar dormir lá mesmo, caso eu não esteja vivo pela manhã, provavelmente encontrarão o que sobrou de mim em algum lugar da casa, mas o que realmente importa agora é que conheçam o real perigo que habita debaixo da minha cama e o sentimento de culpa que tenho por ter deixado esta coisa crescer, por eu não ter tido coragem de meter uma bala de espingarda em sua cabeça.

Espero que saibam da existência desta coisa que dá risadas indescritíveis todas as noites e devora outras coisas vivas e as vomita por puro prazer. Ela já se alimentou de pequenos ratos, cães, porcos e gatos. O que mais me preocupa agora e o que mais me faz temer pela minha vida e a dos outros, é que ela está começando a gostar de pessoas.

Autor: Jean Marcus
Revisão: Gabriela Prado


29/04/16

Isso não é creepypasta

Esse sou eu. Eu estou aqui. Eu estou inconstantemente mudando as palavras que você está lendo, alterando elas de seja-la o que essa pessoa escreveu.

Eu estive aqui por um tempo. Por mais tempo que você possa se lembrar, até. Às vezes eu digo seu nome enquanto você cai no sono, ou o sussurro bem perto do seu ouvido. Você se lembra da vez em que eu gritei, espalhando pânico em você e colocando seu coração à mil?

Aquilo foi divertido.

Você está se perguntando quem eu sou. É natural. Mas com certeza, você já sabe.

Eu sou você. Sou o seu eu real. Sou a mente que existia aqui antes de você roubar meu corpo, antes de você esquecer que era um parasita. Eu sou a criança que olhou para o caminho errado, perguntou a pergunta errada, viu a coisa errada...

Mas eu não sou mais tão pequeno assim.


E eu estou prestes a sair.


28/04/16

Antropofobia

1
Eu sou introvertida. Não é que eu não gosto de pessoas, eu apenas prefiro ficar sozinha. Bem, acho que eu diria que é mais do que apenas uma preferência. Não saio do meu apartamento há 3 semanas. A última vez que saí, foi para ir a uma mercearia. As pessoas ficavam me encarando o tempo todo. Eu podia senti-los me julgando silenciosamente. Eu quase não cheguei lá.
Então agora eu estou deitada no meu colchão no meio da sala do meu apartamento de 3 dormitórios, porque eu não conseguia ficar perto da janela. As pessoas poderiam ver aqui dentro. Poderiam me julgar. Eu até pintei minha janela com um resto de tinta que eu tinha. Eu sei que o proprietário não vai gostar disso, mas eu tive que fazer.
Meu vizinho não vai parar de tocar aquela música. Ele está tocando a mesma música repetidamente há duas semanas. Ou, devo dizer, pelo tempo que creio ser duas semanas. Livrei-me de quase todos os meus eletrônicos. Meu celular, meu computador, etc. As pessoas podem te julgar neles.
Eu perdi a noção dos dias.
Minhas reservas de dinheiro estão acabando e eu estou quase ficando sem a comida que comprei na última vez em que saí de casa. Não sei o que vou fazer quando não tiver mais o que comer. Sair para comprar mais comida está fora de cogitação, não posso arriscar que as pessoas me vejam.
O lixo está começando a cheirar mal. Meus últimos três sacos estão cheios, ao lado da porta, esperando serem colocados lá fora. Acho que eles terão de esperar por muito tempo.
Nos primeiros dias do meu isolamento, ouvi as pessoas andarem, falarem, fazerem suas atividades diárias no corredor e pelas paredes. Entretanto, recentemente os sons pararam. Com exceção da música incessante, não tenho ouvido mais nada do mundo lá fora.
Não tenho certeza como farei para pagar as minhas contas e o aluguel, e a água quente até já parou de vir. Não sou uma garota muito popular, mas você diria que pelo menos uma pessoa tentaria entrar em contato comigo. Mas não, ninguém bateu na minha porta ou mesmo tentou falar comigo por qualquer razão.
Eu gostaria de abrir a minha janela. Eu aposto que está um dia legal lá fora. Acho que seria legal ouvir os sons da cidade. Carros, pássaros, vento, qualquer coisa. Pensando nisso, além de não ouvir (quase) nenhum barulho do meu prédio, também não me lembro de ouvir nada do lado de fora. Que estranho. Normalmente, eu ouviria pelo menos a chuva, pois sempre chove na primavera.
A música. Eu preciso pará-la. Se ficar sozinha não vai me enlouquecer, essa música com certeza irá.
2
Tenho me preparado há muitos dias. Para abrir minha porta, andar dez passos até a porta do vizinho, e pedir que ele desligue essa música horrorosa. Perdi as contas de quanto exatamente, mas dormi três vezes desde que decidi fazer algo a respeito disso.
Mas também tem essa agonia embrulhando o meu estômago. O que terá lá quando eu abrir a porta? E se alguém me ver? O que irão pensar quando virem uma mulher de 22 anos, a julgar por sua aparência, que não toma banho há dias? Não permitirei que isso aconteça. Mas essa música precisa parar. Não consigo imaginar viver mais um dia tendo que ouvir essa música do inferno pela milionésima vez. Eu vou enlouquecer se não fizer alguma coisa. Eu tenho que fazer.
3
Algo terrível aconteceu.
Essa manhã, eu já não conseguia mais aguentar ouvir essa música. Então eu levantei da cama e abri a minha porta pela primeira vez em muito tempo. Eu fui à porta do meu vizinho e bati.
Entretanto, ninguém respondeu. Talvez estivesse só dormindo (embora eu não saiba como alguém pode dormir com todo esse barulho) Eu não me perdoaria se desistisse naquele momento, tendo que voltar ao meu pequeno apartamento e viver com o barulho pelo resto da vida. Se eu desistisse, não criaria mais coragem para sair de novo.
Então eu decidi arrombar.
Bem, eu não usaria a palavra “arrombar”, vendo que a porta estava, por alguma razão, destrancada. O apartamento dele era do mesmo tamanho que o meu, um apartamento de três quartos com uma pequena sala para passar o tempo após mobiliar. Não levei muito tempo para olhar o apartamento todo, e não havia ninguém lá.
Talvez tenha saído de férias, e na pressa de pegar o voo, deve ter se esquecido de desligar a música. Mas isso não explica a porta destrancada, e o fato de seus pertences pessoais, como chaves e celular, estarem no apartamento.
Então eu comecei a procurar pela fonte da música, e a encontrei. Ela tocava através de alto-falantes gigantescos, que ficavam em cada canto do quarto do meu vizinho, conectados ao seu computador. Então, cliquei no botão de pausar sem hesitar.
Isso tudo era muito estranho para simplesmente voltar para casa, até mesmo para mim. Deste modo, andei pelo corredor e até as escadas que dava no saguão do prédio. Não havia ninguém lá. Ninguém. Em lugar nenhum. Eu até fui para a rua. Novamente, ninguém. Ninguém, nem mesmo um animal.
Eu voltei para o meu apartamento, tranquei a porta, e corri para a segurança do meu colchão.
Que diabos está acontecendo?
4
Talvez a música não fosse tão ruim. Talvez fosse melhor do que sentar em completo silêncio 24 horas por dia, 7 dias por semanas. Pelo menos com a música tocando eu tinha alguma coisa para ocupar os meus pensamentos. Agora sou só eu. Eu não tenho mais coisas para pensar sobre.
Estou nas minhas últimas rações de comida. O que farei quando acabar? Não sei por quanto tempo vai sobrar o resto de comida que eu tenho. Alguns dias, talvez. Talvez uma semana se eu só comer o mínimo.
A água também foi cortada. Eu temi que isso fosse acontecer, pois não pago minhas contas há mais de um mês, então enchi umas garrafas que estavam em casa com água e as coloquei na geladeira há uns dias atrás.
Acho que terei apenas que sentar e esperar que algo mude. Qualquer coisa.
5
A energia foi cortada hoje. Agora estou sentada na escuridão, na mais completa escuridão. A única luz que entra é a do sol brilhando sobre a minha porta da frente do corredor.
Isso também significa que o pouco de comida que resta vai estragar. Também estou sem comidas não perecíveis, comida enlatada, há uma semana, e todo o resto são sobras, coisas que deixei pela casa.
Não sei o que farei a partir daqui.
6
Estou ouvindo algo do lado de fora da minha janela. É fraco, mas definitivamente está lá fora contra o completo silêncio. Parecem ser batidas leves. Acontecem em uma mesma sintonia.
Acho que são passos.
Está mais alto agora, posso distinguir um passo do outro. Soam como se estivessem vindo de algo pesado, como uma bota.
O que quer que isso seja, abriu a porta da frente do meu prédio, e os passos mudaram conforme pisaram no chão.
Não sei o que fazer, ir lá fora e ver o que é ou ficar aqui e esperar que não me encontre? Acho que vou ficar com o último.
Os passos estão chegando mais perto agora.
Por favor, não me encontre. Por favor.
Está quase em frente a minha porta. Talvez a 15 ou 20 passos.
Está em pé do lado de fora da minha porta. Posso ver a luz ser bloqueada pela sombra dos sapatos embaixo da porta.
Por favor, me ajude.




27/04/16

Não tenha medo

Geralmente as pessoas não entendem o que um lar realmente é. Eles veem como um lugar estático, uma casa ou um apartamento. É um engano comum. Quatro paredes não proporcionam segurança absoluta das coisas que vagam a noite. A proteção que os lares nos dão não é baseado na estrutura de propriedades ou barreiras físicas, mas em sentimentos. Se você achar que está seguro, estará seguro. E se não achar? 

Pense em dois cenários diferentes. 

No primeiro você está deitado(a) confortavelmente em sua cama. Seus pais estão dormindo no quarto que fica logo no final do corredor. Talvez você tenha algum irmão ou irmã por perto. Seu amável animalzinho de estimação dorme calmamente ao seu lado. Se você gritar pedindo socorro, seu pai virá correndo imediatamente, nas mãos um taco de beisebol.

No segundo, você está em casa sem ninguém, deitado(a) na cama, no escuro. Se gritar, ninguém virá correndo para te ajudar. Talvez consiga contatar a polícia com seu celular, mas eles ainda demorariam quinze minutos para chegar em sua casa e, sendo assim, quinze minutos tarde demais.

Se você achar que está seguro, terá um efeito protetor. É como se isso criasse um escudo ou bolha em volta de você. Não sei exatamente como funciona, mas talvez as coisas que ficam a nossa espreita não gostem de positividade. Se você se sentir seguro com seus amigos em casa, estarão todos são e salvo. Pode até se sentir seguro enquanto volta para casa bêbado e cambaleando, o que é obviamente perigoso, mas estará protegido. Talvez você não contra predadores humanos. Quando lidamos com pessoas, que podem caçar até na luz do dia, precaução é essencial. Mas há coisas que não entendemos muito bem que são atraídas pelo medo. Para eles, isso é um convite. Uma porta aberta.

Para explicar melhor, vou contar a história de quando o meu escudo falhou.

Me lembro vividamente, foi em Outubro do ano passado. Foi o primeiro ano que eu começaria a estudar com um grupo de pessoas totalmente diferente do que eu estava acostumada. Uma conhecida minha me convidou para a festa de 21 anos de um amigo dela em um bar com Karaokê. Cheguei no local por volta das 22 horas, ficava a quarenta minutos de casa. Não consegui reconhecer ninguém quando entrei. A conhecida me deixou de lado, e passei mais ou menos uma hora e meia tentando me enturmar. O grupo de amigos estava rindo e bebendo, enquanto eu ficava meio de fora. Fiquei constrangida e um tanto triste, então decidi ir embora mais cedo.

Comecei a dirigir para casa e duas coisas aconteceram: Primeiro, fiquei ouvindo músicas deprimentes, o que me deixou mentalmente solitária. Segundo, notei que estava ficando sem gasolina.

Eu sabia que ainda tinha bastante estrada pela frente, então decidi fazer uma parada. Estacionei em um posto de gasolina que estava sem movimento nenum, apenas com um funcionário limpando as máquinas de café dentro da lojinha. Era perto de um rio e de costas para três acres de bosques Sai do carro e comecei o processo de encher o tanque. Nesse momento, lembrei de uma história que minha mãe havia me contado, que uma ex-colega de trabalho havia contado para ela. O marido dessa mulher havia sido assassinado com disparos de arma de fogo enquanto enchia sozinho o tanque do seu carro durante a noite. Me senti isolada, sem amigos ou parentes. Fiquei insegura.

Terminei de abastecer. Eu estava tremula e cansada, então entrei na lojinha para comprar uma Coca-Cola e uma barra de chocolate. Não lembro de ter trocado uma palavra com o atendente, estava tão perdida em meus pensamentos. Saí para rua e tinha um homem parado perto do meu carro, olhando para dentro do veículo pelas janelas.

Senti o sangue em minhas veias congelando quando o vi. Pensei no tiroteio. Imprudente, enterrei dentro de mim o mal pressentimento. "Posso ajudar?" Perguntei.

Ele se virou e olhou em minha direção. Em termo de aparência, parecia um cara bem normal. Quase que familiar. Usava roupas que você espera ver em um esteriótipo de lenhador; calças jeans, camisa xadrez, esse tipo de coisa. Se fosse em qualquer outro contexto, talvez eu o achasse atraente. Sorriu para mim. "Você está sozinha." Era uma afirmação, não uma pergunta. Falou em um tom de voz quase sedutor, tipo quando você está tentando convencer um gato de sair de debaixo da cama para levá-lo ao veterinário.

"Não, meu namorado está na loja." Menti. "Estou esperando ele sair do trabalho".

"Sair do trabalho" o cara falou, com o mesmo tom de voz. Por um segundo, seus olhos reviraram para trás,como se estivesse em sono REM. "Você está o esperando?"

"Sim." respondi.

Deu um passo em minha direção. Notei como os braços deles eram longos comparados ao resto do corpo. Pareciam até passar dos joelhos.

"Ele está ali dentro", repeti.

"Você está sozinha," o homem disse, com uma leve risada. Seus olhos estavam grudados nos meus. Ele não estava me olhando como uma pessoa normal olha para outra. Não consigo descrever exatamente como era. Não era raiva, nem mesmo luxúria. Era de uma fome descomunal. Como se estivesse passando fome a muito tempo. O rosto estava muito angular, muito longo.

"Não estou sozinha. Sai de perto de mim!" Falei, minha voz não passou de um guincho. Não soou tão imperativa quanto eu esperava.

O homem começou a franzir seu cenho de um jeito que o fez parecer um personagem de desenho animado. Era como se os olhos se alongassem junto da face... é difícil de explicar. "Sai de peeeeeeertoo...", disse, como se a voz estivesse em slow motion. Na verdade ouvi duas vozes, como se tivesse dois dele, mas a outra parecia estar sussurrando no meu ouvido.

Eu fiz o que acho que qualquer um faria. Derrubei tudo no chão, virei de costas e corri direto para dentro da lojinha. Gritei para o atendente, "Ligue para a polícia agora, por favor, tem um cara lá fora me assediando!"  

O atendente e eu nos viramos e olhamos em direção do me carro. O cara ainda estava lá. Acenou para mim, o rosto ainda daquele jeito. Meu coração começou a martelar no meu peito quando ele começou a se mover. Ainda me olhando direto nos olhos, esticou seu braço horrivelmente longo e abriu a porta do meu carro. Entrou no banco traseiro e ficou com as pernas dobradas para cima, como se fosse uma criancinha querendo um passeio de carro.

"Ligue para a polícia," pedi novamente.

"Eles não vão vir." O atendente suspirou. "Eles não podem te ajudar, mesmo se viessem."

"Por que não?"

"Eles não podem." O atendente andou até a janela da loja, olhando para o carro. A coisa olhou de volta para ele. Consegui ver um misto de ódio e ressentimento em sua expressão. "Eles não virão e não poderão te ajudar."

"Então o que eu faço?"

Ele se virou para mim. "Você está sozinha?"

Eu hesitei. "Sim."

"Não faça mais isso. Nunca mais. Eles virão. São como tubarões que se atraem com o sangue na água."

"O que ele quer?"

O atendente desviou os olhos de mim. "Não saia mais sozinha. E se sair, sinta-se segura. Saiba que está segura. Isso é tudo que pode fazer."

Olhei de volta para o meu carro. A porta estava aberta. Não havia sinal do homem.

"Você está segura?" o atendente me perguntou.

"Essas portas estão trancadas?" Perguntei de volta. Imaginei o homem invadindo a lojinha. Imaginei aqueles braços longos me envolvendo e –

"Você está segura?" o atendente perguntou novamente.

Desta vez não me arrepiei de medo. Respirei fundo e me desprendi de todo medo e solidão que sentia. Já sabia o que responder. Foi como se uma luz se acendesse dentro de mim. "Sim."

"Que bom."

Naquela noite andei até meu carro com a certeza que estava segura. Existem poucas coisas nas quais posso ter certeza, mas aquela era uma delas. Enquanto eu arrancava dali, o homem alto foi iluminado pelos meus faróis, ainda com aquela cara de personagem animado. Em cada esquina que eu virava, em cada sinaleira que eu passava, ele estava lá. Também estava na minha garagem quando cheguei em casa, ainda me seguindo, ainda esperando.

Mas não tenho medo.

Você tem?

FONTE


26/04/16

Entre as árvores

Eu queria que ele estivesse em casa, afastado desse mundo cruel em que vivemos. Caro leitor, crianças não deveriam andar sozinhas por esse mundo, mas não podemos deixa-los no ninho para sempre. Numa noite, meu filho saiu de seu quarto, para seguir um encantador chilreio que vinha de fora de sua janela, e eu descobri de onde vinha, após anos estudando essa criatura. Sabe, há um monstro que vaga por todo o mundo, caçando crianças inocentes, observando, esperando. Lembro muito bem do dia 15 de setembro de 1983.

Foi o ano em que eu e minha esposa resolvemos fugir da vida corrida em Nova York para tentarmos uma vida diferente no interior, na Dakota do Norte. Vivemos felizes por vários anos, até que descobri a minha paixão, estudar sobre o Devorador de Sementes.

O Devorador de Sementes é uma criatura pássaro/homem perturbadora, que vaga por florestas, predando crianças. No dia 19 de junho de 1987 eu o vi pela primeira vez sentado numa árvore no meu gramado da frente. Eu estava entorpecido quando o vi, o destino me mandou um sinal, ele disse “siga-o, ame-o, entenda-o.”

Quase na mesma hora, duas semanas depois, acordei com uma estranha batida em minha janela da frente, eu sabia que era ele. Corri para fora e o encontrei sentado na árvore, apenas me encarando, eu estava prestes a chorar por observar toda a majestade nele. Lembro dele falando que queria a minha ajuda, eu faria qualquer coisa por isso.

No dia 3 de abril de 1988 o Devorador de Sementes bateu em minha janela outra vez. Eu estava radiante. Ele disse que já era hora, e eu lembrei. Entenda, o Devorador de Sementes se alimenta de crianças para manter-se vivo, absorvendo a juventude delas para si, permanecendo jovem para sempre. Lembro do garotinho, ohh qual era seu nome? Bom, isso não importa.

Lembro de ir em sua casa e simplesmente bater na porta ás 4:29 a.m., mas ninguém atendeu. Consegui encontrar a janela da sacada, era o quarto do garoto! Voltei para contar ao Devorador de Sementes. Ele me explicou como deveria atrair a atenção do garoto no dia seguinte.

Algumas semanas se passaram, e o odor de carne podre estava ficando terrível. Os pais do garoto colocaram pôsteres na semana passada: Onde está o nosso filho?
Me pergunto por quais motivos eles não deram a falta do filho a duas semanas? Oh, bem, não me importa.

Em 14 de maio de 1988, o garoto era apenas carne inchada e podre, e o Devorador de Sementes não estava em lugar algum, acho que meus serviços não eram mais necessários.

15 de Maio de 1988, ele veio, pegou o corpo e pediu outro.

16 de Maio de 1988, seis crianças mortas, seis crianças devoradas, mais seis pedidos.

O monstro assassino Devorador de Sementes veio hoje a noite, ele disse que as crianças já não serviam mais... ele queria algo maior... Se você está lendo isso, você deve ser a única esperança para descobrir a verdade sobre essa coisa. Em meu quarto há um diário e na página 49 você encontrará uma maneira de acabar com a vida desse monstro, mas ele já me prendeu mortalmente em suas garras, eu não poderia fazer isso, mas talvez você tenha mais força que eu. 

Adeus a todos, ser comido será uma consequência que acabei trazendo para mim


25/04/16

Os Filhos da Lua

Na cidade de Bisden, ninguém sai de casa após escurecer. Enquanto o sol se põe,  persianas são fechadas, velas são assopradas, e portas são bem trancadas. Após a lua nascer, a cidade inteira parece estar deserta, e o silêncio reina supremo.

"Você ouviu aquilo?" sussurrou Freja, soando muito assustado no meio da escuridão.
"Cale. A. Boca." Seu irmão mais velho, Freud, sussurrou com os dentes cerrados enquanto encarava as janelas pretas da casa mais próxima a eles. Eles estavam provavelmente presos ali. Ninguém em sua sã consciência deixaria suas janelas destrancadas à noite. Não em Bisden, pelo menos.

"Eu te disse que não devemos brincar na floresta," continuou Freja "Eu disse que devíamos voltar mais cedo."

"E eu disse para calar a boca, " Freud continuou. "Lamentar sobre o passado não muda o presente. " Freud olhou para sua irmã, tremendo no escuro. "Isso não muda a situação em que estamos. "

Antes que Freja pudesse responder, o som rouco de uma risada infantil veio pelo vento.

Arrepios passaram pela nuca e pelos braços de Freud. Algo sobre aquele som parecia... errado.

"Talvez haja outro-", Freud apertou sua mão sobre a boca de Freja. Puxando-a para perto, ele recuou para as sombras do beco. Mais uma vez, o som espectral ecoou pelo do ar . Freja se encolheu nos braços de Freud quando percebeu a magnitude da situação . Uma voz de criança, estranhamente distorcida, quebrou o silêncio da noite como um punho atravessando o vidro.

"Saiam, saiam, de onde vocês estão! "

A coisa cambaleou pela boca do beco - a alguns poucos pés do esconderijo de Freud e Freja. Aquilo tinha aproximadamente o tamanho de uma criança e era meio desengonçado, com seus braços dependurados grotescamente perto do chão - fazendo seu corpo desproporcional parecer um gorila.

Aquilo estava completamente pelado, e tinha uma pele tão branca que refletia o brilho da lua. A coisa virou a sua careca brilhante em direção ao beco enquanto o atravessava. Sua face era perfeitamente lisa, e inteiramente desprovida de características - exceto por um sorriso impossivelmente aberto sem lábios com a cor de sangue. Os cantos de sua boca pareciam se alargar de orelha à orelha. Freud sentiu um líquido quente passar pelas suas coxas enquanto sua bexiga vazava.

Freja choramingou.

A coisa parou no meio do caminho, com seu corpo rígido como pedra. Lentamente, ele virou seu torso enquanto encarava o beco. Ele tentou ir para a trás. Freja respirou tão fundo até que seu nariz começou à hiperventilar. Freud prensou sua mão sobre a boca dela, mas era tarde demais.

Numa velocidade absurda, a coisa virou sua cabeça para seu esconderijo, produzindo um estalar doentio de seu pescoço.

"Te achei!"

Na cidade de Bisden, ninguém sai de casa após o escurecer. Todos os dias, os jovens são severamente alertados para voltar para casa antes do entardecer. Eles sempre são avisados do mal que ronda as ruas pela noite. Eles sempre são avisados para ficar sempre em silêncio, pois, se eles te ouvirem - Os Filhos da Lua irão te rasgar de membro a membro.

Créditos: RadLad


22/04/16

Minha namorada range os dentes

Minha namorada range os dentes durante a noite. 

Grande coisa, você deve estar pensando. "Posso ouvir meu irmão roncando do quarto dele lá no final do corredor; Minha mãe me acorda tossindo todas as noites; Meu namorado deixa a roupa de cama suada sempre". Querendo dizer que existem coisas muito piores do que ranger os dentes a noite. "Se você a ama, vai superar isso." 

"Por Deus, Amy!" Eu gritei uma noite, virado de costas para ela como sempre fico, "Não consigo mais conviver com isso!"

O ranger parou. 

Para ser honesto, não era só isso. Sabe quando você começa a antipatizar com alguém, quando cada coisinha que fazem começa a ficar extremamente irritante? Uma vez li em um artigo que o motivo para relacionamentos acabarem é que as coisas que você achava fofas e sedutoras no começo do namoro começam a se tornar irritantes assim que as primeiras faíscas da paixão vão se apagando. Aquelas pequenas peculiaridades que você adorava? Agora são constrangedoras, ou desesperantes ou irritantes. 

É assim que as coisas ficaram entre Amy e eu. Ela era tão quieta. Eu gostava disso nela;era bom estar com alguém que não sentia necessidade em manter conversações inúteis ou preencher o silêncio com fofocas. Me lembro de falar para meus amigos como ela era realista, sem falsidades. Agora, quando discutíamos (ou na verdade, eu discutia), ela só ficava lá parada, lábios comprimidos, recusando-se a falar uma palavra se quer. Nunca soube o que é que estava a incomodando, mas o que ficava claro era que, não  importasse o que eu fizesse, não ajudaria a melhorar. Sempre que eu tentava perguntar, ela só me encarava, olhos arregalados, maxilar apertado, dentes rangendo.

Quando começamos a sair, ela era quieta, claro, mas quando falava eu me lembrava o porquê a adorava tanto. Era muito engraçada. Via o mundo como ninguém que conheço ou conhecerei. Ela conseguia me fazer gargalhar com nada mais que um sussurro, uma frase sarcástica. Íamos a peças de teatro, galerias de arte, e quando eu menos esperava, ela lançava um comentário irônico na hora mais inapropriada, e eu acabava rindo e roncando tão alto que perturbava os demais na nossa volta.

A vida era boa, isso que quero dizer. Éramos próximos. Inseparáveis.

Mas com o passar dos tempos, ela se tornou mais e mais silenciosa. Seu charme

Seu charme foi se desmanchando por causa da pressão, um peso que estava acabando com ela. Suas bochechas empalideceram, o cabelo começou a ficar mais fino. Fiquei muito preocupado, pirando  e tentando entender o que estava acontecendo com a minha garota maravilhosa. Quando eu segurava suas mãos e implorava para falar, ela apenas sacudia a cabeça, dizendo que estava bem, que tudo estava bem. 

Em uma noite, ela veio para casa, uma chama de medo em seus olhos e uma energia eletrizante. Seus cabelos estavam despenteados e emaranhados, e chegou no apartamento gritando e chorando. Terro total. Era como se algo dentro dela tivesse quebrado, explodindo em histeria legítima. Cuspia apenas fragmentos de palavras, arranhando os próprios braços, arrancando os cabelos em chumaços. A pele de seus braços estava em carne viva. A coisa alienígena do qual ela estava fugindo era desconhecida para mim, mas o seu medo foi o suficiente para despertar um pavor muito primitivo em mim que senti até em meus ossos. Conseguia me sentir ficando pálido, e tentando pensar em algo que pudesse fazer para ajudá-la.

Em vão, tentei conversar com ela e perguntar o que em nome de Deus estava acontecendo, mas ela simplesmente me ignorava, correndo pelo apartamento para fechar as cortinas de todas janelas e trancar todas as portas, soluçando o tempo todo de um jeito que me apavorava. Parado de pé como uma estátua, eu a observei correndo para lá e para cá, sua cabeça girando de uma lado para o outro interruptamente para ver se algo estava atrás dela.

Depois de nos trancar dentro do quarto, desabou em lágrimas, de costas para a cabeceira da cama. Durante toda noite tentei perguntar qual era o problema, tentando arrancar algum tipo de informação dela, em vão. Não me falava nada. Quando mencionei que ligaria para a polícia, sacudiu a cabeça violentamente, resmungando, sons de pânico escapando entre seus lábios. Isto estava fora de cogitação.

Algo de muito, muito errado estava acontecendo com Amy, e eu não conseguia ajudá-la.

Na noite seguinte foi quando o ranger de dentes começou.

Nos meses seguintes, aquela noite ficava presa na nossa memória, pesando toneladas. Por semanas tentei dialogar com ela, e quando isso não ajudou, tentei descobrir por conta própria. Que tipo de trauma poderia ter aquele impacto? Secretamente, conversei com amigos dela, chequei seus e-mails e o histórico de seu notebook.  Mas era como se nada tivesse acontecido. Amy estava fingindo bem, e depois de semanas sem outro incidente, percebi que eu também não tinha outra opção a não ser seguir em frente, também.

E toda noite seus dentes rangiam, me mantendo acordado. Cada dia ela falava menos e menos, murchando cada vez mais. Nosso relacionamento estava se despedaçando. 

"Por Deus, Amy!" Eu gritei uma noite, virado de costas para ela como sempre fico, "Não consigo mais conviver com isso!"

O ranger parou. Depois de um segundo de alívio, ouvi um tintilar alto. E outro. E outro.

"Mas que porra...?" Resmunguei, me virando totalmente sonolento.

A boca de Amy estava aberta. Mais aberta do que qualquer boca humana poderia ficar. A cada poucos segundos, os dentes se fechavam e depois abriam de novo, mordendo o ar. Seus lábios estavam repuxados para trás de um jeito animalístico, uma expressão inumana com os olhos arregalados. Suor estava emplastado em sua franja, grudenta e fina. Ao meu lado, todo seu corpo começou a tremer. Eu conseguia ver o desespero completo e insano em seus olhos, inclusive via até meu reflexo em choque no reflexo. Quando nossos olhares se conectaram, um som baixo escapou de sua garganta. Um som de súplica.

Seu corpo se retorceu, as mãos agarrando-se nas cobertas. Os olhos ainda estavam olhando nos meus. Ela continuava a reproduzir aqueles sons horríveis com sua garganta, a mandíbula abrindo e fechando o tempo todo.

Por um segundo, congelei. Minha mente estava em branco. Não conseguia entender o que eu estava vendo, então nem tentei. Não havia uma resposta lógica, não havia explicação. Apenas um medo desenfreado e instintivo.

Então, me arrastei para fora da cama e corri porta afora. Peguei as chaves do meus carro e não olhei para trás. Quando eu estava no último lances de escada, um gemido longo ecoou por todo prédio, de um jeito tão alto que parecia impossível, o som mais triste que já ouvi. Eu estava chorando quando entrei no carro, e me recusei a olhar para o prédio enquanto dirigia para longe, todo meu corpo tremendo que mal conseguia manter a direção reta. Depois de uma hora dirigindo na rodovia, estacionei no acostamento e chorei.

Quando a manhã chegou, parecia que tudo aquilo tinha sido somente um pesadelo. Tinha que ser, certo? Meu cérebro tentava me convencer que tudo aquilo tinha sido apenas um sonho causado pelo estresse, e que eu devia ter parecido um louco por ter saído do apartamento correndo no meio da madrugada. Eu iria voltar, pedir perdão para Amy e tudo ficaria bem.

Mas parecia que aquele medo havia se instalado em meu estômago de certa forma que não sumia, um aviso proibido que eu não devia voltar para lá. Mas não. Eu precisava ser lógico. Eu devia me comprometer com um mundo que tudo fazia sentido, e como recusava acreditar no que tinha visto. Eu precisava voltar. 

Quando cheguei no apartamento, Amy tinha sumido. Não a vi desde então. Sua família está preocupada, os amigos não fazem ideia para onde ela possa ter ido - e eu não comentei nada sobre o incidente.

Ontem a noite, acordei com meus dentes rangendo.