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4 de ago de 2015

O Porão

Alguns anos atrás, minha família foi para Cabo Cod (Massachusetts) e nós alugamos uma pequena e velha casa para ficar durante duas semanas. No primeiro andar estavam a cozinha, a sala e o banheiro. Os quartos eram no segundo andar. Havia um porão no subsolo, com uma máquina de lavar, uma secadora, um sofá e uma TV.

Na primeira noite, nós todos fomos acordados por um grito terrível vindo do quarto da minha irmã. Quando meu pai praticamente quebrou a porta do quarto ao entrar e acendeu a luz, ele a viu sentada na cama, gritando e chorando. Meus pais se sentaram junto com ela e a confortaram até que ela se acalmou o suficiente para contar o que havia visto.

Ela disse que acordou no meio da noite por causa de um cheiro horrível. Quando abriu os olhos, viu o quarto inteiro encharcado de sangue do chão até o teto. Haviam marcas de mãos e manchas gigantes nas paredes.

Todos nós achamos que ela só tinha tido um pesadelo, mas ela se recusou a entrar naquele quarto de novo e ficou no quarto dos nossos pais pelo resto da viagem.

Uma tarde, minha mãe estava preparando a janta, meu pai havia ido até uma cidade próxima. Minha irmã e eu estávamos no porão vendo TV quando, de repente, a lâmpada estourou e a televisão se desligou sozinha, nos deixando na completa escuridão. O porão estava inacabado e tinha paredes de pedra, o que o tornava um lugar um pouco assustador. Por alguns segundos, ficamos apenas congelados no lugar, sem saber o que fazer. Até que começamos a sentir um cheiro horrível.

Era um cheiro terrível e, quando chegou nos nossos narizes, nos sentimos enjoados. Cheirava como carne apodrecendo ou algo do tipo. O cheiro começou a ficar pior, e começamos a ouvir barulhos de algo arranhando as paredes e o chão. Gritamos e saímos correndo por aí sem enxergar nada, tentando achar a porta. Eventualmente, conseguimos abrí-la e corremos para cima gritando para que nossa mãe viesse.

Contamos pra ela várias vezes sobre o cheiro e o barulho de algo se agarrando e arranhando as paredes. Depois de muito enchermos o saco dela, ela resolveu ir lá embaixo, trocar a lâmpada e procurar o lugar de onde vinha aquele cheiro. Ela pegou uma lanterna e uma lâmpada nova e desceu no porão escuro enquanto esperávamos por ela. Achamos que ela voltaria rápido, mas pareceu que ela ficou lá por uma eternidade.

De repente, a vimos surgir da escuridão, trancar a porta o mais rápido que podia e subir as escadas correndo. Ela virou pra nós e simplesmente disse:

-Eu não quero mais que vocês voltem nesse porão.

Então ela foi pra cozinha e ligou para a polícia.

Conseguimos ouvir a conversa no telefone e descobrimos que ela tinha visto alguém la embaixo. Ao passo que esperávamos a polícia chegar, nos aconchegamos na sala encarando a porta do porão. Achamos que algo iria bater nela ou derrubá-la a qualquer momento. Minha mãe não queria dizer de forma alguma o que ela tinha visto lá.

Assim que a polícia chegou, minha mãe cumprimentou os dois homens e os mostrou o caminho para o porão. Ela destrancou a porta e eles entraram na escuridão com suas armas em mãos. Procuraram no porão inteiro, mas não acharam nada. Não havia outra saída do porão, não haviam outras portas ou janelas. O que quer que estivesse lá tinha que ter saído pela mesma porta por onde entrou.

Depois que os policiais foram embora, minha mãe revelou o que tinha visto no porão. Enquanto falava, ela ficou imóvel e mais quieta. Disse que estava trocando a lâmpada de lá, quando sentiu o mesmo cheiro que havíamos descrito para ela e que, depois, começou a ouvir um som fraco de algo arranhando as paredes. Ela ligou a lanterna e deu uma volta para procurar o que estivesse fazendo aquele som. Disse que viu alguma coisa entre a máquina de lavar e a secadora.

Era um homem, de quatro. Suas roupas estavam extremamente rasgadas, seu cabelo sujo e cheio de nós, e seu rosto não era humano. Estava quase que retorcido, com uma expressão de puro ódio. De repente, aquilo se arrastou pra frente e desapareceu dentro da parede. Quando minha mãe o viu desaparecendo, apenas largou a lanterna e correu.

Depois disso, nenhum de nós voltou no porão, que deixávamos trancado. Toda noite, eu e minha irmã dormíamos no quarto dos meus pais, que também trancávamos. Desistimos da viagem alguns dias depois e simplesmente voltamos para casa.



PS.: sim, eu sei o quanto essa história é clichê.

Emagrecimento

Já ouvi muitas histórias de emagrecimento aterrorizantes, maioria envolvendo solitárias ou lombrigas. Entretanto conheço uma que minha vó me contou. Ela tem 92 anos de idade e já viveu muitas coisas em sua vida. Eu costumava amar suas histórias quando era pequeno, mas enquanto ia envelhecendo, começaram a ficar mais depressivas e até assustadoras. Essa é uma delas. Para ficar mais fácil, transcreverei a história do ponto de vista de minha avó.


"Nunca fui feliz com meu corpo. Eu era uma menina gorda e me tornei uma adolescente gorda. Garotos não gostavam de mim, garotas faziam piadas de mim, e até minha própria mãe tentava me emagrecer fazendo uma dieta totalmente restritiva sem doces e sem segundo prato. Dói muito quando sua mãe a faz sofrer assim. Eu só desejava ser magra e bonita. Mas então as coisas mudaram.

Primeiramente, nós nos mudamos. Então minha perda de peso começou. Eu passava a maior parte do tempo com minha mãe. Continuei a não comer doces e definitivamente não repetir nenhum prato. Fui posta em uma dieta com minimo possível de calorias diárias. Sempre sopa. Era apenas caldo, as vezes com algum tipo de carne, mas quase sempre apenas vegetais. Isso de janta. De café da manhã tomava um copo de café com torrada - as vezes com manteiga, as vezes sem. Sem almoço. Sem lanches. Isso era o que eu comia por dia. 

Perdi peso tão rapidamente que mal podia acreditar. No começo, era muito bom. Tudo que eu sempre quis era ser magra, certo? Minhas costelas começaram a saltar sem que eu precisasse encolher a barriga. Conseguia andar sem sentir as minhas pernas antes gordas balançando. Mas continuei a perder peso. As costelas que saltavam? Conseguia contá-las. Estava sempre tonta e fraca. Estava sempre exausta quando ia me deitar. Parei de menstruar. Minha pele era seca e dura, como se eu nunca me hidratasse. Me sentia e parecia como um esqueleto. Ninguém conseguia me fazer parar de perder peso. Minha mãe chorava quando me via nua. Não havia nada que ela pudesse fazer - a ajuda estava além de seu alcance.

Isso continuou por anos, essa restrição de calorias. Meu emagrecimento quase me matou. Mas consegui me salvar. Sai de Auschwitz e pela primeira vez na minha vida, fiquei feliz em poder comer e ganhar peso."


3 de ago de 2015

Pessoas

Você deita na cama, sua janela está aberta e um vento delicado entra no seu quarto. Você encara o teto, esperando o tempo passar. Desde quando dormir é tão difícil? Você se pergunta silenciosamente, balançando os pés de forma frenética, esperando que o sono apenas te leve. Você não dorme há muito tempo, e já tem quase três dias que você tirou um cochilo.

Deitado ali, seus sentidos parecem mais aguçados. O assovio quase silencioso começa a lembrar uma coruja; seus olhos se ajustaram a falta de luz, permitindo que você enxergue cada detalhe ao seu redor.

De repente, você ouve um rangido. Depois de um tempo, você tenta se convencer que é apenas algum galho lá fora ou cachorros na rua, afundando a cabeça mais ainda no travesseiro.

Outro rangido, e em seguida uma colisão. Você praticamente pula, agarrando a arma que descansava embaixo do criado-mudo. “Quem diabos está aí?” Você grita, apontando o objeto para todos os cantos do quarto.

Tem alguma coisa na sua janela, e começa a rastejar lentamente pela abertura. Seu rosto é branco e ele tem alguns riscos negros na bochecha, lembrando arranhões. O sorriso estava estampado em seu rosto, o cabelo médio e negro quase se arrastava no chão; ele – ou ela – usava algo que lembrava um vestido branco, sujo com alguma substância escura que lembrava sangue.

A coisa se aproxima de você rapidamente, te empurrando e forçando você a se enfiar mais na cama, e então, sussurra três palavras em um de seus ouvidos.

“Apenas... Vá... Dormir...”

Você olha para os olhos da coisa e se levanta, encarando-o friamente. “E quem diabos você pensa que é? Entrando no meu quarto desse jeito!”

A coisa te encara de volta. “Espera... O que?”

Você suspira raivosamente. “E por que você me mandou dormir?! Quer dizer, eu poderia muito bem estar QUASE pegando no sono, né? Mas nãooo, você tinha que entrar aqui!”

A coisa começa a se mover até a janela. “Eu–eu vou apenas... Vou embora.” E sai calmamente, logo depois pulando e sumindo na noite.


Você coloca a arma onde ela estava e deita na cama novamente, suspirando e falando em voz alta. “Meu Deus... O que tem de errado com as pessoas ultimamente?”

Anna

Ele gostava de fazer trabalho voluntário na ala de psiquiatria do hospital da sua cidade. Na verdade, ele era um corretor de ações, mas tanto stress o fez procurar uma válvula de escape. No passado, ele sempre recorria à bebida para diminuir a pressão, mas com o uso contínuo, acabou chegando a lugares que ele nunca mais queria alcançar.

Não sabia o motivo de gostar tanto do hospital, ele não era muito fã dos malucos que precisava ajudar; na verdade, ele pensava que a maioria dos pacientes eram casos perdidos... Então, ele acreditava que Anna era o motivo pelo qual ele sempre retornava. Anna era uma pequena garota, talvez dez ou – no máximo – doze anos de idade. Ela não deveria ficar na mesma ala que os adultos, mas a cidade era pequena e não havia recursos suficientes para uma ala separada. Ele se sentia mal pelas crianças que eram obrigadas a conviver com esses doentes psicopatas... Ou se sentiria se Anna não fosse a única com menos de trinta e cinco anos.

Anna era, provavelmente, a pessoa com menos problemas daquele hospital. Ela tinha ataques de ansiedade horríveis, toda vez que saia do prédio. Eles diziam que se ela saísse mais, provavelmente morreria de tão grande que seria o choque. A única coisa que fazia ela se sentir melhor era conversar, então, ele conversava com ela por horas, e acabava quase sempre em tópicos estranhos. Sentia uma necessidade de saber tudo sobre ela, um desejo que talvez ultrapasse os limites do que era supostamente certo naquele relacionamento. Mas Anna parecia tão feliz quando eles conversavam que ele não conseguia ficar longe por muito tempo... A garota só se irritava quando ele perguntava os motivos pelos quais ela estava lá, e com o tempo, ele sentiu que, se ela soubesse a razão, ela mesma contaria com o tempo, e que se ele continuasse insistindo, a amizade dos dois poderia acabar.

A conexão deles cresceu a cada dia, eles eram tão próximos quanto irmãos e irmãs; ele não era mais voluntário, deixou sua turma e passou a visitar o hospital todos os dias, só para estar com ela, e parecia a ajudar com a ansiedade.

Um dia ele a encontrou abraçando uma bola no final do corredor, chorando silenciosamente para si mesma. Quando ele perguntou o que estava acontecendo, ela finalmente disse o motivo pelo qual ela estava no hospital.

Ela e a mãe haviam sofrido um acidente de carro por causa de um motorista bêbado; a mãe acabou morrendo e ela precisou ser hospitalizada, e não conversava com ninguém na maior parte do tempo – na verdade, ela havia começado a se comunicar pouco tempo antes dele começar o trabalho voluntário – .

Tocado pela ideia de que ele poderia ter ajudado em alguma parte do processo de recuperação de Anna, ele se sentiu corajoso o suficiente para perguntar se eles conseguiram encontrar o assassino. Ela disse que não, e que por isso ela não poderia sair do hospital, “Tenho medo que ele procure por mim...” Ela disse. Ele tentou confortá-la, disse que o motorista talvez nem lembrasse o que havia acontecido e que provavelmente não iria atrás dela, mas nada funcionou. Finalmente, em um momento de desespero, ele prometeu que mataria o motorista caso ele tentasse se aproximar da garota. Aquilo despertou a atenção de Anna, e mesmo que ela tenha ficado chocada pela demonstração de brutalidade, aquilo fez com que ela parasse de chorar.

O resto do dia correu normalmente, mas ele decidiu que conversaria com o médico de Anna antes de ir embora.

Nunca havia conversado com ele antes, mas todos naquela ala o conheciam, então, ele resolveu se apresentar. Quando ele perguntou sobre Anna, o médico parecia extremamente ansioso para ouvir o que ela havia dito, aparentemente, ninguém sabia o motivo pelo qual ela estava lá, eles apenas a encontraram, sangrando, perto da rodovia.

Surpreso, ele resolveu contar a história de Anna, e no final o médico recostou em sua cadeira e disse: “Richard, o que você está me contando é muito sério... Não existe ninguém com o nome de “Anna” nessa ala. Você teve um ataque nervoso recentemente, e têm vindo ao hospital para sessões com o psiquiatra. No entanto, você têm apenas piorado, não melhorado... Desde a última visita você não saiu do hospital. Isso foi há um mês... Diga-me, Richard, lembra-se da última vez que esteve no trabalho?”

Que pergunta IDIOTA! Claro que ele se lembra... Não, ele saiu de férias do trabalho pra passar algum tempo com a Anna! Como ele se esqueceu disso? Mas o médico apenas fez que não com a cabeça. “Você foi forçado a tirar uma licença do trabalho e visitar o psiquiatra esporadicamente. Nós acreditamos que você tenha algum trauma, e que as lembranças talvez tenham causado esse ataque, e consequentemente algumas alucinações. Pelo que você me disse agora, estou quase certo de que você foi responsável por um acidente enquanto dirigia bêbado...”

Ele ficou parado, seu rosto congelado e sua expressão em choque. Isso era impossível, ele havia parado de beber... Logo quando ele começou o trabalho voluntário no hospital... Não... NÃO! Ele não fez isso, mas as memórias pareciam estar voltando, as luzes dos faróis e os momentos rápidos e confusos daquele acontecimento.

Foi aí que ele as viu, como se as memórias tivessem reduzido de velocidade e passassem em câmera lenta. A garota de dez anos de idade gritando no banco do passageiro.

Quando ele abriu os olhos novamente o médico não estava lá, Anna estava sentada no lugar dele; nenhuma palavra saia da boca dela, ela apenas o encarava. Ele encarou de volta por um momento e olhou para baixo, fechando os olhos novamente um momento depois. Ele se sentia tão culpado, e ele havia feito uma promessa.

Richard pegou uma tesoura.




2 de ago de 2015

[DIGNÍSSIMO SENHOR SIMPLÓRIO] Episódio 4: Eu Te Amo



Sim, meus caros... Digníssimo Senhor Simplório está de volta, e desta vez, com um formato deveras diferente! Hoje, ele irá narrar pra vocês um assunto bastante interessante, mas que nunca recebeu ampla cobertura da mídia. Segurem seus corações!

Preparem seus fones de ouvido e apaguem as luzes, pois será uma experiencia bastante "agradável". E não se esqueçam, digam o que acharam das mudanças no formato, e quais histórias vocês querem ver narradas pelo vosso Digníssimo. Ele ficará feliz em ouvi-los...

Confiram! Se gostarem, não se esqueça daquele like maroto e comentem ai embaixo o que acharam \o/


Link para a história original:

M A R I O

Esta é uma história verdadeira, e resume o que se passava em minha mente enquanto jogava isso, e eu não fazia idéia de que estava prestes a ser enganado da maneira que eu fui. Posso dizer que esse é, de longe, o hack mais assustador que eu joguei em toda minha vida. Se você estivesse em meu Skype, teria me ouvido falar sobre esse jogo ao vivo, mas mesmo assim, já é tarde da noite, e eu não tenho muito tempo pois preciso dormir , então isso é tudo que posso fazer nesse tempo...

Então, tudo aconteceu na noite de todas as noites. Eu estava entediado, obviamente pensando no que poderia fazer para passar o tempo, e conversando com algumas pessoas no SMW Central (um enorme fórum que reúne vários hacks do game Super Mario World). Tivemos bons momentos, e compartilhamos algumas risadas. Graças ao tédio, decidi dar uma olhada na seção "Hacks Esperando Moderação". Parece que tínhamos uma boa quantidade de jogos; 33, se eu não me engano. Os primeiros hacks que eu vi estavam ordenados por data, e era uma porcaria atrás da outra, com imagens de qualidade horrível para completar.

Naturalmente mostrei esses hacks para os donos do fórum. Estávamos rindo muito do quão ruim alguns deles eram, mas então eu cheguei a um hack chamado "MARIO". Apenas isso, nada mais, nada menos. A descrição era muito estranha, como se algum hacker japonês tivesse tentado traduzir o enredo original de Super Mario World em Inglês, mas falharas horrivelmente. Mostrei isso para Kieran, e então ele começou a rir com a descrição. Dizia o seguinte:

"Enquanto você faz o papel do Super Mario Encanador, verifique se sua linda Purinsesutozutouru novamente Bowser sequestrou o rei do mal. É o seu trabalho salvá-la! Este hack inclui seis níveis muito extensos."

Eu simplesmente considerei isso como uma tentativa de alguém tentando agir como japonês, e liberando um hack de merda com algumas modificações, ou algo assim. Bem, isso era que eu pensava...

A curiosidade foi mais forte. Decidi fazer o download do hack, não sabendo no que eu estava prestes a me meter, uma vez que a única imagem prévia do hack, era a tela de título original com nada mais, exceto pelas letras "Mario", da tela de titulo do Super Mario World. Achei um pouco estranho não haver datas nem nada disso, já que os hackers costumam colocar seus nomes e datas sobre os títulos para marcar quando o projeto fora iniciado.

Então, quando abri o arquivo do hack, me deparei com 2 arquivos: Um deles se chamava 3007014, um simples arquivo no formato .txt

27 KB de tamanho, junto com o arquivo IPS, simplesmente chamado "MARIO". Por alguma estranha razão, eu queria ver o que o autor do hack tinha a dizer, mas quando abri o hack no Bloco de Notas, não havia nada, além de indistinguíveis símbolos, letras e sinais de pontuação, tipo aqueles que aparecem quando você abre um arquivo .rom usando um programa editor de textos, como o Notepad. Parecia que o autor havia simplesmente convertido seu arquivo .rom para o formato .txt, se bem que eu posso estar errado. Olhando mais atentamente, descobri que no topo do arquivo .txt, misturado com o embaralhado de letras e símbolos, havia uma única coisa lá que parecia estar em Inglês. Aqui está um trecho do que encontrei:

"ÿØÿà JFIF H H ÿþ 1find me find me find me find me find me find meÿÛ C"

Para ser sincero, eu não sabia o que fazer sabendo disso, e eu achava que era perda de tempo ficar procurando mensagens subliminares no meio de um arquivo todo embaralhado... Estou disposto a apostar que ninguém nunca será capaz de fazer isso fazer sentido.

Porem decidi que, já que meu interesse fora crescendo constantemente, eu iria começar a procurar em minha pasta horrivelmente desorganizado de downloads por uma cópia de um jogo comum, que eu havia baixado à um bom tempo antes dos acontecimentos desta noite, e por um patcher IPS; claro que a minha escolha para o trabalho foi o programa Lunar LPS (LIPS).

Em seguida, prossegui a mover o ROM e o Patcher IPS para a pasta do hack. Eu usei o patch na ROM, não sabendo o que esperar em seguida, e então rapidamente arrastei-o para o emulador ZSNES, esperando jogar o que eu achava ser uma porcaria de hack, com base na imagem prévia do jogo. Na inicialização, notei que o autor havia tido tempo de alterar o cabeçalho de seu hack. Ao invés do habitual titulo "super marioworld" que você normalmente vê no canto esquerdo quando inicia um rom no ZSNES, ele só tinha a palavra “mario”, mais uma vez. Neste ponto, ganhei um pouco de esperança, porque normalmente as pessoas que fazem hacks meia-boca geralmente nem sequer mudam o título do cabeçalho. Por um momento pensei não estar perdendo meu tempo com isso, e meu humor se iluminou um pouco com a idéia de ver o que o autor tinha a oferecer em seu pequeno hack interessante. Assim, a tela de título carregou, exatamente como seria em Super Mario World, exceto que só havia "Mario" escrito no título, como eu havia mencionado anteriormente. Outra coisa que aumentou ainda mais meu interesse, era que a coloração do “modelo” brilhante e animado do Mario parecia mais, como posso dizer... "cinzento". O que antes era violeta-vermelho agora se tornara um cinza com um pequeno tom vermelho, e eu tenho quase certeza de que suas calças também pareciam mais cinzentas do que o normal... Achei isso estranho, e me perguntei por que ele decidiu deixar o Mario com uma palheta de cores tão “chata”. Independentemente de suas intenções, eu senti que havia algo... errado. Não no sentido de que a palheta estava pior, mas de que o hack parecia vazio, como se algo tivesse acontecido. Ao pressionar start e selecionar um novo arquivo, assim como um monte de hacks do Mario que eu havia jogado no passado, apareceu uma espécie de tela de introdução que, basicamente, descrevia toda a história do jogo em um pequeno parágrafo, pequeno o suficientemente para caber em uma caixa preta. Comecei a ler, e para a maior parte, a mensagem permanecia a mesma, mas houve um detalhe essencial que deixou tudo mais interessante. Aparentemente, o principal antagonista deste hack não era Bowser, assim como em todos os outros. Ao invés disso, era o... Mario?

A mensagem dizia exatamente isto (traduzido):


"Bem-vindo! Essa é a Terra dos Dinossauros. Nesta estranha terra descobrimos que a princesa Toadstool fora raptada novamente! Parece que Mario está por trás disso mais uma vez!"

“Mas que...? Essa não era a mensagem original de Super Mario World", disse a mim mesmo. Normalmente eu nem pensaria nisso, vendo como, em meus quase 2 anos na SMWCentral, já joguei incontáveis hacks ​​e me deparei com muitas mensagens de introdução diferentes, mas por alguma razão esta realmente mexeu comigo. Neste ponto, eu definitivamente sabia que havia algo estranho com este hack. Ao deixar a música de introdução tocar, apertei o botão Start em meu joypad para finalmente chegar ao mapa e começar minha jornada por este jogo desconhecido. Ao entrar no mapa principal, tudo parecia normal. Mesmos caminhos e fases antigas, mesma musica original, só os nomes das fases eram diferentes.  Ao invés de "Yoshi’s House", como era de costume, agora se chamava simplesmente "Yoshi"; a parte da “House" havia sumido. Comecei a perder a esperança do hack, pois parecia que o autor não havia mudado quase nada da versão original. Eu esperava ver algo novo, algo chocante. Bem, infelizmente para mim, meu desejo fora realizado, como você verá quando continuar lendo. Decidi entrar na fase somente por curiosidade. Quando entrei, a casa inteira do fundo havia sumido. Não havia mais fumaça, não havia mais fogo, não haviam mais passarinhos, nada. Tudo o que restava era a caixa de mensagem. Ao abri-la, a mensagem que eu esperava estar lá fora substituído com o que parecia ser um código binário.


Aparentemente, o código traduzia para: "bloco de notas".

Neste ponto, eu estava no Skype dizendo a todos que aquele hack estava começando a me assustar, o que resultou em algumas respostas sarcásticas, mas hey, eu já esperava isso. De qualquer forma, após isto, meu nível de interesse pelo hack disparou, e junto com ela minha paranóia... Rapaz, que surpresa divertida eu estava para ter. Em seguida, decidi ir para a esquerda. Ao chegar na fase antes conhecida como “Yoshi Island 1", ela fora nomeada agora como "never come back (nunca mais volte aqui)". Agora eu achava que as coisas iriam resultar em uma armadilha mortal, assim como no famoso hack “Kaizo Mario”, porque geralmente as fases são nomeadas assim, para garantir que o jogador não vá pra lá. Para minha surpresa, não foi exatamente dessa forma, porém, depois do que passei, eu gostaria que fosse. Ao entrar na fase, fui cumprimentado pelo som absurdamente alto do veículo voador de Bowser, que pode ser ouvido logo antes da ultima batalha do jogo. Claro que, como meus fones de ouvido estavam moderadamente alto, aquele barulho me fez pular da cadeira, o que provavelmente não teria acontecido se eu já não estivesse sido tão nervoso antes disso. Decidi neste momento que seria melhor abaixar o volume de meus fones de ouvido, para não ter mais surpresas desagradáveis como essa.

Quando entrei no nível, com exceção da música, tudo parecia ser a mesma coisa, exceto pelo fato de que o pequeno Koopa que desliza na primeira borda não estava mais lá, nem mesmo o Bill Banzai. A moeda do dragão ainda estava lá, no entanto, por alguma razão, eu não conseguia coletá-la, ou melhor, nenhuma das moedas de dragão do jogo. O autor teve a certeza de fazer isso. Também notei que havia um bloco marrom já usado, perto do local onde o Banzai Bill normalmente aparece. Eu só pude supor que esta era uma revisita a fase depois que eu havia a terminado, assim como ouvi falar em algumas histórias assustadoras meia-boca relacionadas a outros jogos do Mario. Agora eu queria saber por que as coisas estavam daquele jeito, o que me fez pensar na mensagem de introdução do hack: Mario havia feito alguma coisa à Terra dos Dinossauros? Tudo isso era do ponto de vista de Bowser? Rapidamente rejeitei a última opção, porque parecia meio estúpida demais. Aquilo me deixou pensando que Mario, em algum ponto no tempo na história do autor, causou alguma coisa... Mas o quê?

O que Mario havia feito? Minha mente não fazia mais nada além de deixar os pensamentos correrem neste momento. No entanto, rapidamente tirei isso tudo da cabeça e continuei a me aventurara no nível, só para descobrir que todos os blocos já haviam sido basicamente atingidos basicamente; todas as moedas foram coletadas (exceto pelas Moedas de Dragão, aquelas ainda estavam lá e ainda eram impossível de serem obtidas), não havia inimigos, e eu já não podia mais descer em canos. "Que tipo de besteira que eu estou jogando aqui?", fiquei pensando comigo mesmo. Neste ponto, me senti desconfortável. Decidi continuar me aventurando. Eventualmente me deparei com outra caixa de mensagem, que eu não estava surpreso que ainda estava na fase. No idiota que sou, pulei e bati na caixa. Ao atingi-la, fui recebido com a familiar caixa preta mais uma vez. A mensagem fora obviamente editada, como já esperava. Ela dizia o seguinte (traduzida):


"-PONTO DE DICAS –
Eu te odeio”

Agora tive a impressão de que as coisas estavam começando a ficar na “vibe” de que o autor era um indivíduo doentio e esquisito, e eu tinha certeza absoluta de que Mario definitivamente havia feito alguma coisa. Neste ponto eu estava basicamente correndo para chegar ao fim da fase, até me deparar com outra caixa de mensagem, no entanto, esta era apenas uma caixa em branco com o titulo "-PONTO DE DICAS-" escrito no topo, e nada mais. Rapidamente ignorei-a e dirigi ao final da fase, na esperança de sair de uma vez daquele inferno.

Ao chegar próximo ao fim, encontrei uma Flor de Fogo no bloco superior, na parte onde haviam quatro blocos um do lado do outro, só que desta vez só havia o bloco mais alto. Era impossível para mim chegar lá pelos meios normais, então eu só continuei seguindo em frente, como um cego curioso faria. Então, eu finalmente cheguei ao fim, e como sempre, o caminho para chegar ao Palácio do Interruptor Amarelo foi liberado. Decidi seguir por este caminho, e descobri quando entrei no mapa principal de fora, todas as montanhas e decorações, exceto pelos fantasmas que sobrevoam as Casas dos Fantasmas haviam sumido. Nada mudou dentro do Palácio do interruptor Amarelo, exceto pela mensagem do final: Tudo o que aconteceu foi que “SWITCH-PALACE” foi alterado para “MARIO-WORLD”. De qualquer forma, justo quando pensei ter terminado essa abominação chamada de hack, descobri que a fase “Yoshi’s Island 2” também fora editada. Maravilha...

Ao chegar na Yoshi’s Island 2, vi que ela havia sido renomeada para “YOSHI’S HOUSE”, o nome original da fase onde você começa o jogo.

Resolvi entrar e descobri que a palheta de cores da fase também havia sido mudada, junto com o fundo. Eles pareciam ter sido alterados para a mesma palheta da Yoshi’s Island 3, você sabe, com tudo esverdeado e tal, exceto que a cor do fundo fora escurecida para uma cor marrom meio podre, e que a vegetação no solo não estava mais presente . Dando alguns passos, me deparei com uma trilha de Koopas, aquela que inúmeros jogadores jogam um casco para ganhar uma vida extra. Ignorei-os e segui para ver se a fase havia sido mais alterada. Finalmente me deparei com o "?" que prende o Yoshi, e com isso, pulei no bloco para liberá-lo. Após fazê-lo, recebi esta mensagem:


"Hooray! Obrigado por me salvar. Meu nome é Yoshi. Em meu caminho para resgatar os meus amigos, Mario me prendeu neste ovo."

Neste momento, pensei em todos os cenários possíveis: Mario atacando a Terra dos Dinosauros, destruindo as plantações, causando danos horríveis e irreversíveis, enfim, tudo. O autor havia me fisgado com seu pequeno jogo doentio, e como qualquer outro idiota, eu mordi a isca e ainda voltava para conseguir mais...

Em algum lugar não muito longe do bloco do Yoshi, eu encontrei outra caixa de mensagem, no mesmo lugar em que me lembro de estar no jogo original, porém, se eu aprendi alguma coisa jogando isso, foi que as caixas de mensagens não guardavam coisas boas para mim. Isso me fez hesitar em bater nele, mas eu acabei fazendo-o de qualquer maneira. Eu queria saber mais. A mensagem que eu recebi foi a seguinte:


"mas

há algo que eu possa fazer para você mudar de idéia?"

Que porra era essa? O que diabos isso queria dizer? Mudar de idéia? Sobre o que eu mudaria de idéia? Isto se tratava sobre todas as coisas que Mario havia feito, e sobre como as pessoas estavam tentando convencê-lo a parar? Yoshi estava falando comigo através das caixas de mensagens? Ou era sobre mim? Parecia que o hack estava tentando se comunicar comigo através das caixas de mensagens. Bem, de qualquer forma, se aquilo se tratava sobre o que Mario havia feito, ou sobre minha decisão de continuar, decidi continuar a jogar, apesar dos sinais evidentes de que eu deveria ter parado a um bom tempo. Enquanto progredia, descobri que eu estava certo: toda a vegetação havia sumido, e nada fora deixado na fase, excepto por alguns inimigos, como os Jogadores de Futebol e as Marmotas; até mesmo os canos haviam sumido. Me deparei com outra caixa de mensagem. Como todas as outras vezes, decidi atingi-lo. Fui recebido com outra mensagem enigmática...


"-PONTO DE DICAS-
Esta é a maneira egoísta de sair."

A maneira egoísta de sair? Que diabos... O hack estava me chamando de egoísta por continuar a jogá-lo apesar das advertências? Neste ponto, eu estava assustado a ponto de estar tremendo um pouco, um misto de expectativa, o medo, e o fato de que meu quarto estava terrivelmente frio naquela noite. Fechei a caixa de mensagem e mais uma vez segui em frente. A área com os marmotas parecia não ter mudado, mas o fundo com as nuvens felizes também haviam desaparecido, como pude ver quando escalei o cipó. Isso fez com que eu me sentisse triste, para dizer o mínimo, não tão assustado quanto deprimido... é um sentimento que eu não consigo explicar muito bem. A partir deste ponto, era basicamente apenas um enorme caminho de terra até o final da fase. Eu continuei rapidamente, queria dar o fora de lá o mais rápido possível, já que havia passado tempo demais olhando ao redor. Então, eu e Yoshi (eu ainda estava montado nele) finalmente abrimos o caminho para a próxima fase. Ela também fora alterada. O que antes era Yoshi’s Island 3 agora se tornara "Yoshi’s Island 7". O hack Memories of Super Bobido World imediatamente veio em minha mente, já que ele tinha esse mesmo sistema de pular vários números de fases, o que o fazia parecer ainda mais ridículo, mas neste momento eu não havia achado nada bem-humorado, devido ao senso comum e razões óbvias explicadas anteriormente. Entrei no nível sem hesitar. Quando entrei, fui recebido por um fundo preto sólido, e um piso azul e cinza. O lugar parecia congelado... Sem vida e estéril. Não havia nada na fase, exceto pelo poste de checkpoint.

Apenas um trecho de terra clara com mais nada em volta. Rapidamente perdi meu interesse e terminei a fase, apesar desta parecer ser a fase mais solitária e assustadora do jogo, pelo menos até agora, já que as coisas se tornariam piores em breve. Com a fase terminada, um novo caminho se abriu: “Yoshi’s Island 4” se tornara apenas "leave now (saia agora)". Agora eu hesitei sobre querer parar de jogar, mas meu interesse ainda era mais forte. Neste ponto, SMWCentral não era mais nada alem de minhas postagens constantes sobre as descobertas e mensagens do hack, para que outros pudessem experimentar o que eu estava experimentando. O canal, infelizmente, estava estranhamente inativo; parecia que ninguém realmente se importava, ou não estavam por perto. Eu me sentia sozinho... Mas prossegui para a próxima fase. Na maior parte, tudo parecia o mesmo, tirando o fato de que agora não havia mais água para me impedir de cair em buracos sem usar Yoshi como um sacrifício. O nível também estava vazio de inimigos.

Sempre que eu chegava num buraco que parecia muito longe para eu pular por cima, descobri que eu poderia andar no ar, assim me livrando da necessidade de utilizar Yoshi como um sacrifício. Era evidente que o hack queria que eu o deixasse comigo, pelo menos até agora. Fui capaz de chegar ao cano que geralmente me leva para a saída da fase. Entrei e vi que a sala estava exatamente normal, tudo no mesmo lugar e nada editado... ou foi o que pensei. A caixa de mensagem, mais uma vez, quebrou o clima daquele breve momento de alívio que eu tive ao entrar pelo cano. Nesse ponto, eu estava questionando se eu deveria continuar para ver como tudo aquilo terminava, ou sair naquele momento enquanto eu ainda tinha um pouco de senso comum sobrando. A caixa de mensagem era meio indistinguível, e eu sinceramente não consegui entender o que queria dizer:


"Você conseguirá se cortar a no final. Se você coletar você pode."

Por um momento tentei descobrir o significado daquela mensagem, mas, eventualmente, desisti e terminei o nível. Imaginei que a caixa não valia muito a pena. Com o nível terminado, o caminho para o castelo do primeiro mundo foi liberado, agora renomeado de "#1 Iggy’s Castle" para "#1 GO BACK (#1 VOLTE)". Com certeza, me senti muito bem-vindo ali...

Ignorando completamente o nome da fase, já que estava decidido a terminar de vez com tudo aquilo para sempre, segui em frente. O que parecia ser a introdução normal da entrada de de um castelo foi deixada especialmente assustadora, dado o fato de que eu tive que me separar do Yoshi. Eu senti pela primeira vez que eu estava realmente abandonando-o, e aquilo definitivamente não era bom. A sala interior do castelo parecia estranha; havia um tom de lava esverdeada escura no teto, e havia postes que pareciam pilares. Além de que, ao lado de cada pilar, havia uma quantidade bem alta de caixas de mensagem, quanto mais eu avançava, mais a quantidade aumentava. A sala era basicamente um grande corredor sem inimigos ou qualquer coisa do tipo. Toda caixa de mensagem que eu acertava me davam ou uma mensagem em branco com a assinatura do Yoshi, no fundo, ou a mensagem que dizia o seguinte:


"Você não acha que já causou problemas o suficiente?"

Outra mensagem enigmática, embora neste ponto já não me surpreendera tanto quanto das primeiras vezes. Novamente, os pensamentos em minha cabeça começaram a circular. Queria saber exatamente o que Mario havia feito, por que ele estava ali, e porque tudo e todos queriam que ele desaparecesse para sempre. Eu estava me sentindo mais deprimido do que com medo neste momento, para ser sincero, e eu não tinha idéia do que esperar em seguida. Eu continuei andando no longo corredor, verificando caixas de mensagens que não continham nada, exceto pelas mesmas 2 mensagens repetidas. É como se eles estivessem me dizendo para parar de jogar, ou algo assim. Obviamente, eu os ignorei e continuei  andando. Finalmente cheguei ao fim do corredor.

Havia uma porta, pela qual entrei. Fui recebido por nada, mas um pequeno pedaço de terra, e naquele ponto, a tela estava me empurrando automaticamente, e assim eu pensei que aquele deveria ser o fim, que o autor queria que eu saltasse no buraco e cometesse suicídio ou algo assim, terminando assim minha jornada. Eu estava errado; a rolagem automática me empurrou pra fora da beirada, mas eu continuava andando, infelizmente. A fase não era nada alem de um longo trecho de terra invisível e um outro pequeno pedaço de terra, grande o suficiente apenas para caber uma porta de chefe. A rolagem automática de repente parou, e eu me preparei para o pior. Juntei minha compostura, engoli a saliva da minha boca, e respirei fundo. Entrei.

Nada além de um chefe normal, Iggy; me senti enganado de uma certa forma, no entanto. Fiquei feliz de pensar que tudo aquilo finalmente iria acabar. Derrotei Iggy somente com 2 saltos, sem esforço, que na verdade fora a vez que eu o derrotei mais rapidamente. Depois que ele caiu na lava, a mensagem de congratulação da derrota do chefe apareceu como de costume. Depois disso, fui levado para a cena do resgate do ovo e destruição do castelo, mas ao invés da mensagem de costume, me foi mostrado algo perturbador e muito diferente, como um perfil de uma cena de um crime. A mensagem foi a seguinte:


"Vitima #1: Os olhos foram incapazes de serem encontrados. A vítima foi encontrada deitada em seu tapete. Causas de morte ainda são desconhecidas, impressões digitais não identificáveis ​​foram encontradas em todo o cadáver".

"Mas que merda tem de errado com esse cara?!" gritei ao ler a mensagem perturbadora. Quero dizer, era um hack, mas ainda assim! Quem era a vítima? Por que seus olhos foram arrancados, e o que poderia ter tornado essas impressões digitais encontradas em seu corpo como não identificáveis? Fora isso que Mario havia feito? É isso que o autor estava tentando me dizer? E, além disso, a garota era a Princessa Toadstool? Levei um tempo para ver se eu havia lido a mensagem corretamente, então continuei seguindo em frente, embora eu quisesse saber o que acontecera em seguida, uma vez que o mapa principal estava completamente desaparecido e não havia nenhum vestígio dele em lugar algum. Para minha surpresa, ele ainda mostrava o caminho marcado para Donut Plains, as telhas do evento ainda estavam lá, marcando o caminho para o nível solitário abaixo do mapa gigante que uma vez já fora o mundo principal. A fase ainda se chamava “Donut Plains 1”. Pensei mais uma vez que iríamos finalmente acabar com aquilo, mas quando entrei no nível, pude ver que, assim como nas vezes anteriores, eu estava mais uma vez errado. Ao entrar, vi duas caixas de mensagem. Elas diziam o que se segue:


"Não tem como sair daqui"

"Voe para longe"

Eu achei muito estranho que ambas as caixas de mensagens se contradiziam. Uma estava me dizendo que não havia maneira de sair daquele inferno maldito, e o outro estava me dizendo que, se eu pudesse voar, eu poderia ser livre, embora eu não tenha visto nenhuma pena ou inimigos com penas para que eu pudesse pega-la. A mensagem estava me dizendo que eu poderia me levantar e ir para o céu, ou ficar para sempre naquele inferno, correndo em desespero? Será que eu precisava de uma capa para continuar? E o que acontece depois disso? O jogo se resume a isto? Comecei a criar mais teorias em minha cabeça tentando entender as caixas de mensagens, mas sem sucesso. Eu continuei andando para a direita. Dei um salto, mas notei que estava preso naquela área; havia uma parede invisível me impedindo de sair. Quando encostei no chão, tentei passar novamente correndo para à direita, pra ver se havia alguma maneira de seguir em frente.

De repente ouvi o som que toca quando você entra por um cano, e eu estava fazendo essa mesma animação, só que no chão; não havia nenhum cano na área, por isso parecia muito estranho. Fui então levado para um nível com um fundo preto, blocos de pedra de chão, e uma pequena porta. Imediatamente o jogo me deu um cogumelo para me impedir de entrar nela, então eu prossegui pra ver se há mais alguma coisa no nível. Achei que a sala não era nada, exceto por um longo trecho de blocos de concreto e portas que eram pequenas para que eu pudesse entrar por causa do cogumelo. É óbvio que o autor não queria que eu passasse por qualquer um deles, senão eu não teria recebido o cogumelo em primeiro lugar. Enquanto prosseguia, encontrei-me num beco sem saída. Como não havia nada para me olhar, eu tentei ir para a direita novamente. Funcionou: fui através da parede de tijolos. Ela agiu como um tubo, e eu a atravessei e fui em direção a escuridão.

Fui então levado para uma pequena sala, com o que parecia um buraco, e uma parede. Eu pulei no buraco vendo como não havia outra opção, embora eu achasse que o fundo do poço era sólido. Tentei me abaixar em um monte de áreas até me deparar com um tubo secreto; Mario lentamente fez a animação de descer pelo cano, indo para fora da tela. Pensando que iria para a próxima fase, eu esperei, esperei, mas não havia mais nada. Apenas uma tela preta. Eu era incapaz de continuar. Não era possível se mover, pausar ou sair do nível. Não havia absolutamente nada para ser feito. Esta era a representação da morte em um videogame: uma travada. Mario havia morrido...

Depois de jogar, eu acho que finalmente entendi o que estava acontecendo. Suponho que Mario estava arrependido pelas suas ações, e nisso, acabou sendo jogado em um inferno que parecia exatamente com a Terra dos Dinossauros, onde ele estava perdido em uma terra de ódio e morte, para sempre...


Eu havia terminado minha jornada, e estava muito aliviado por isso. O pesadelo terminara, e as atividades no fórum e no Skype pareciam ter voltado ao normal. Rapidamente compartilhei meu relato com o resto dos usuários do SMWCentral, e escrevi esta pequena documentação digitada aqui.

Se você se sentir ousado o suficiente, você também pode testemunhar meu relato em “primeira mão”.

Lembrem-se, rapazes, é apenas um hack, ele não pode machucar... Certo?

PRÓLOGO

Este hack, sendo o primeiro desse tipo à chegar ao site SMW Central, obviamente, ganhou muita atenção, até mesmo do fundador e administrador do site, Kieran (atualmente Kieran Menor), que imediatamente reconheceu o arquivo .txt, que Adam confundiu com o. smc (imagem ROM), e converteu em .txt como uma imagem .jpg.

Ele tentou converter manualmente de volta pra .jpg, mas o resultado foi pouco visível. A única parte reconhecível era o topo. Ele, então, continuou pesquisando no Google por imagens com a mesma resolução de sua tentativa de imagem (327x277), e o segundo resultado lhe pareceu ser o que procurava.


Você pode encontrar o post de Kieran aqui (sua tentativa original exibe apenas uma imagem corrompida agora): http://www.smwcentral.net/?p=viewthread&t=42510&page=2&pid=659602#p659602

No entanto, esse tipo de hack acabou se desgastando no SMW Central, e ele acabou sendo removido do site após ser aceito como o primeiro hack desse tipo; um hack de creepypasta. Segue o link onde Kieran explica porque o removeu: http://www.smwcentral.net/?p=viewthread&t=47190

Outro post foi feito pelo usuário “Wizard the Wizzisential”, que postou no mesmo dia, apenas 2 horas mais tarde. Ele mexeu com a imagem corrompida por cerca de uma hora, e nisso, acabou se deparando com a imagem mais perturbadora que havia visto até então. Ele explicou que era um rosto de uma pessoa, exceto que não tinha nariz. Tinha somente dois buracos pra supostamente respiração. Suas pupilas eram somente linhas verticais, como de uma cobra. O olho, porém, fora transformado em um olhar de raiva, e as sobrancelhas estavam inclinadas para baixo. Ele tinha o sorriso mais macabro que já havia visto. Sua cara curvava-se quase até os olhos, e ele tinha uma boca com dentes muito afiados, além de não ter cabelo. Sua imagem salvou automaticamente em seu desktop. Quando parou pra se tocar, viu que estava roendo as unhas sem parar, que chegou a roar até a carne dos dedos. O final do post tinha um texto muito confuso, o que algumas pessoas especulam que foi porque ele desmaiou logo após escrever-lo. Você pode ver nesse link aqui: http:?//www.smwcentral.net/P=viewthread&t=42510&page=3

Download do jogo: 

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PS: Essa creepypasta foi postada pela primeira vez em 2012. Ela foi atualizada recentemente com imagens, links renovados e o prólogo (que não tinha na história postada originalmente aqui), por isso, decidi subir novamente. Mas esse é o mesmo post de 2012, só que atualizado agora.

1 de ago de 2015

[CREEPY VIDEOS] Jogando ToyStory.EXE - A Revolta do Woody!

Desta vez, chegou a hora de jogarmos o tão pedido ToyStory.EXE e enfrentarmos o maldito Woody, que decidiu despirocar de vez pra cima da gente! Será que ele conseguirá nos trollar nesse primeiro jogo baseado na famosa e nostalgica saga dos brinquedos?

Confiram! Se gostarem, não se esqueçam daquele like maroto e comentem ai embaixo o que acharam \o/


Link para download do jogo:

Pulseira Vermelha.

Quando você está internado no hospital, eles colocam em seu pulso uma pulseira branca com seu nome nela. Mas há outras pulseiras de cores diferentes que simbolizam outras coisas. As pulseiras vermelhas são colocadas em pessoas mortas.
Havia um cirurgião que trabalhou no turno da noite em um hospital. Ele havia acabado de finalizar uma operação e estava em seu caminho até o sub-solo. Ele entrou no elevador e havia apenas mais uma pessoa lá. Ele conversou casualmente com a mulher, enquanto o elevador descia.
Quando a porta do elevador se abriu, uma outra mulher estava prestes a entrar quando o médico bateu no botão de fechar e apertou o botão para o andar mais alto.
Surpresa, a mulher repreendeu o médico por ter sido rude e perguntou por que ele não deixou a outra mulher entrar.
O doutor respondeu:
"Foi a mulher que eu havia operado. Ela morreu enquanto eu fazia a cirurgia. Você não viu a pulseira vermelha que ela estava usando?"
A mulher sorriu, levantou o braço e disse:
"Algo como isto?"
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No dia seguinte, um braço que parecia ter sido arrancado com dentes fora encontrado dentro do elevador. Em seu pulso, residia uma pulseira vermelha com o nome do doutor e logo embaixo, escrito: "Dead".

31 de jul de 2015

O Filho da Lua Vermelha

Creio eu que ninguém irá acreditar no que estou prestes a escrever, mas quanto a isso eu não posso fazer absolutamente nada a respeito. O fato é que já perdi a noção do tempo, e estou cada vez mais afundando em minha própria insanidade, então antes que eu seja torturado e depois queimado até a morte, eu vou deixar aqui o que aconteceu.
Eu era o filho mais velho de um senhor feudal muito repudiado pelos servos, e acredito que esse asco seja de minha pessoa também, e de toda minha família. Eu era um jovem muito inconseqüente, não tinha comprometimento com minhas responsabilidades e deveres. Eu e meus irmãos freqüentemente íamos a bordeis e nos deleitávamos dos serviços das mais finas cortesãs do reino, e esse habito perdurou mesmo depois de que foi me dado a mão de minha prima em casamento. Apesar de todas as terras serem minhas por direito, eu tinha muito afeto por meus irmãos e éramos bastante ligados, a ponto de que eu concordei em ceder parte das terras a todos quando o estúpido de nosso pai morresse.
E foi em uma dessas noites de luxuria que tudo começou.
Eu já estava casado e minha esposa estava esperando um filho meu. O fato é que eu não tinha nenhum apresso pela minha cônjuge, embora a mesma me amasse com fervor. Meu filho estava para nascer na próxima lua cheia, e seguindo minha natureza inconseqüente a risca, eu estava em um bordel com três prostitutas. No êxtase da orgia, um de meus irmãos adentrou o quarto que eu estava sendo atendido. Ele me informou que minha esposa havia entrado em trabalho de parto.
Me vesti apressadamente e deixei algum dinheiro sobre a cama, depois parti. O problema é que o bordel ficava longe da mansão de minha família, e se meu irmão saiu de lá no momento em que minha esposa entrou em trabalho de parto, a essa altura ela já deveria ter dado a luz. Praguejei comigo mesmo, mas não por perder o nascimento de meu primeiro filho, e sim, que eu não sabia como iria explicar a minha ausência.
Acreditava eu estar bêbado quando olhei para o céu daquela noite, mas estava seguro de que não. Eu e meu irmão cavalgávamos as pressas, iluminado pelas estrelas e pela... Lua.
Mas a lua estava diferente. Um calafrio percorreu minha espinha quando me dei conta que a lua estava vermelha alaranjada. Como se não bastasse eu não saber como explicar onde estava, meu filho iria nascer sob uma lua vermelha. Deus do céu, isso só poderia ser um mal pressagio, um castigo do todo poderoso sobre meu ser. Um nó se formava em minha garganta, juntamente com o remorso em meu coração.
E durante esse pesar, algo de estranho aconteceu.
A estrada estava bastante escura, e eu ouvi meu irmão gritar. Meu cavalo deu uma guinada furiosa e eu fui arremessado para frente. Depois disso, meu mundo ficou escuro e confuso. Eu tenho algumas vagas lembranças que eu me acordava por alguns segundo, sentindo uma terrível náusea, mas logo depois voltava a adormecer. Sabe lá Deus quanto tempo eu fiquei nesse devaneio, mas o que aconteceu depois me fez ter dores de cabeça por meses.
Me acordei em alguma coisa bastante confortável. Era melhor que minha cama, mesmo que ela fosse uma das melhores do feudo, esse lugar conseguia ser muito mais confortável. O lugar que eu estava me deixou tonto. Era uma sala pequena, de tamanho retangular e de paredes, teto e chão de cor cinza claro. A principio eu pensei estar em uma caverna, mas daí me dei conta que o lugar não tinha portas ou janela.
Meu desespero começou ai. Eu comecei a bater nas paredes, gritando para me tirarem dali, mas era inútil. Estava preso em algum lugar, completamente sem saída. Comecei a suar frio e a me desesperar. Perdi a conta de quantas vezes fiz o sinal da cruz e rezei naquele primeiro dia. A cor daquelas paredes me dava vertigem, e pelo fato de ser tudo tão uniforme, parecia que eu estava perdido em uma imensidão de cinza.
Sem contar naquela pequena cama e naquilo.
Havia uma coisa estranha sobre uma espécie de estante. Eu nunca havia visto nada igual antes, parecia ser até mesmo algo sobrenatural. Havia uma placa estreita com uma espécie de vidro ou algo assim. Também havia outras duas caixas logo abaixo, uma grande e a outra pequena. E perto daquela placa ou caixa, havia outras duas coisas intrigantes. Uma delas era outra placa, mas essa havia o alfabeto, números e outros comandos que eu desconhecia. E a outra coisa era um tipo de bola, ou algo assim, que era dividida no meio a partir da metade.
Aquilo parecia ser alguma coisa de sonho. Não podia ser real. Comecei a rir da fertilidade que minha mente possuía. Decidi me deitar e, assim que acordasse, eu estaria em minha mansão, com minha esposa ao lado e com meus irmãos.
Mas isso não aconteceu. Quando acordei, ainda estava naquele lugar dos infernos. Minha primeira reação ao me dar conta daquilo foi gritar. Antes eu estava com medo, agora eu estava desesperado. O que diabos estava acontecendo? Tinha objetos ali que eu nunca havia visto na vida, e por que eu fui parar naquele lugar? E como, em nome de Deus, eu fui parar ali?
Eu notei que sobre aquela estante havia algo novo: um livro. Era de tamanho médio, e razoavelmente volumoso. Nessas horas que eu agradeço por ter nascido com condições de ter o mínimo de educação para saber ler. Talvez ali tivesse escrito o que estava acontecendo comigo.
Havia algo peculiar com aquele livro. Apenas as duas primeiras paginas estavam escritas, o resto eram apenas paginas em branco, com exceção da numeração, que ia de um à setecentos e trinta.
Na primeira pagina havia uma gravura extremamente realista e perfeita daquele aparato que estava sobre aquela estante. O pintor que havia feito aquilo devia ter um talento quase que sobrenatural. Logo abaixo da gravura, havia um nome: “Computador”. Então o nome daquela coisa era computador? Ainda assim não tinha a mínima noção de como se utilizava aquilo, e muito menos para que fim servia.
Tinha ali breve instruções de como acionar aquela coisa, e eu o fiz por puro instinto. Aquele painel emitiu uma luz que quase cegou meus olhos. Eu não estava acreditando que aquela coisa estava emitindo luz, como se fosse fogo ou o próprio sol. Era assustador demais para mim. O que diabos era aquilo?
Aquele livro estranho informou que eu poderia controlar uma pequena seta com aquela bola, que se chamava “mouse”. Levei minha mão, um pouco hesitante à aquela coisa, e a movi. Eu não notei nada que eu havia movido. Depois de alguns segundos, eu entendi e me apavorei. Aquela pequena seta branca dentro daquele painel, que se chamava “monitor”, estava se mexendo a medida que eu movia o mouse.
Aquela coisa estava me dando dor de cabeça. Por mais que eu fosse um homem inconseqüente e fanfarrão, eu era inteligente e tinha curiosidade pelas coisas, e sempre tentava achar lógica para tudo. Mas aquilo tudo não havia lógica. Como que uma coisa daquelas iria emitir luz sem fogo ou sem nada assim? E como que eu conseguia controlar aquela pequena seta, sendo que não havia nada ligado à aquele mouse?
Me deitei aquela cama e tentei dormir mais um pouco. Por mais que tudo isso que eu fiz parecesse ser coisa de instantes, eu levei quase duas horas tentando iniciar aquele computador e as coisas que ele me revelou me deixaram com dor de cabeça. Alem, é claro, de estar mais apavorado ainda. Como se não bastasse estar preso em um lugar sem nenhuma saída, e com aquela coisa estranha, eu estava com muita fome. Era tamanha, que achei que poderia desmaiar a qualquer momento. Então resolvi dormir, para talvez conseguir esquecer a fome.
Então eu acordei e me surpreendi com uma coisa que vi. Havia um prato com uma espécie de sanduíche redondo, com carne e queijo, e uma bebida escura em um copo de vidro. A primeira mordida naquela coisa me deixou em êxtase. Era muito gostoso, e parecia que meus sentidos estavam sendo explodidos.Talvez fosse por que eu estava com muita fome, mas aquela refeição me deu um vigor muito grande. O problema é que era demasiado pequeno, e acabou rapidamente.
Aquela bebida escura também era como um presente de Deus. Ela era cítrica, como cerveja, mas era ao mesmo tempo, doce e gelada. Valha-me o divino, como era bom aquela mistura de acidez com o gelo.
Deixei-me cair na cama e comecei a rir comigo mesmo. Por mais que eu comesse muito bem, eu nunca havia feito uma refeição tão deliciosa. Mas era assustador, porque eu estava em um lugar que eu desconhecia.
Veio-me uma coisa a mente. Se apareceu comida ali, alguém estava me vigiando, e sabia que eu estava ali. E esse alguém entrou de alguma forma, mas como? Estou começando a ficar mais furioso do que amedrontado, mas daí então eu olhei para aquela coisa. “Computador...” Aquilo tirou a fúria de minha alma e me trouxe de volta ao medo.
Algo me repudiava daquele objeto, mas eu sentia que precisava utilizá-lo de alguma forma. Mas eu não tinha menor idéia de como, e aquela porcaria de livro só havia duas paginas. Mas, quem sabe, eu não deixei escapar alguma pagina?
O que eu vi me deixou assustado e confuso. Alem das duas paginas que já tinha, havia outras duas paginas seguintes. Mas eu estava certo de que não havia nada naquelas folhas. Havia novas informações sobre aquela maquina, e ele me dizia sobre uma coisa chamada internet. Eu não fazia menor idéia do que era aquilo, mas segui as instruções novamente.
Demorei algum tempo para ligar aquela maquina novamente e mais ainda para me acostumar aquele mouse. Era difícil de controlar aquela seta com aquela coisa, ainda mais para alguém completamente descoordenado como eu. Eu não entendi quase nenhuma informação que me fora fornecida nas próximas paginas, mas ela me disse para olhar no canto inferior direito da tela do computador.
Havia uma serie de números e barras: 12/03/2035. Eu não entendi o que aquilo significava muito bem, mas não me deixou tranqüilo. Olhei para o monitor e tentei analisar o que eu via. No livro dizia que aquelas pequenas imagens eram “atalhos”. Havia palavras abaixo deles, mas muitos eram palavras que eu não sabia ler. “FireFox”, “Lixeira”, “Meu Computador”, dentre outros. Me perguntei como haveria uma lixeira naquela coisa, mas não pude pensar muito pois estava ficando com dor de cabeça.
Deus do céu, o que estava acontecendo? Será que era o castigo do todo poderoso por meus pecados? Parte de mim sabia que eu estava bastante lúcido, mas aquelas coisas eram demais para a minha cabeça. Ela doía tanto que eu acabei caindo desmaiado na cama. Os meus sonhos foram completamente sem nexo e muito abstratos. Mas eu consegui reconhecer uma coisa: a Lua. Aquela Lua vermelha alaranjada. Talvez fosse a ultima coisa que eu havia visto antes de mergulhar naquele lugar dos infernos.
Quando despertei, senti como se minha cabeça tivesse sido expandida. A minha primeira reação foi ir a aquele computador. Eu acreditava que aquela coisa talvez pudesse me dizer para que eu estava ali e como eu poderia sair. Embora fosse uma coisa muito complexa para mim, eu estava determinado a tentar.
Dessa vez eu o liguei rapidamente e já estava me acostumando aos movimentos daquela seta que se chamava “cursor”. Outro fato que me deixou intrigado e que reforçou mais minha teoria de que alguém entrava ali era aquele livro, pois quando eu o abri, havia mais duas paginas com mais informações.
Experimentei clicar naquela coisa chamada “FireFox” e a imagem da tela mudou. Eu me assustava pela maneira que aquela tela emitia luz e pior, trocava de cor e imagem quase que instantaneamente. Por Deus, aquela coisa parecia ter saído dos infernos.
“Google”, escrita em letras coloridas com um campo abaixo. No livro dizia que aquela coisa servia para fazer pesquisa e buscar informações. Escrevi então “Onde eu estou?”, e a imagem mudou novamente. Ousei clicar em alguns resultados e a imagem na tela mudou novamente. Aos poucos eu ia me acostumando com aquilo, mas ainda assim eu estava com medo. Nenhum lugar dizia onde eu estava e praguejei comigo mesmo. Considerei que talvez aquele tal de “Google” não dava respostas tão diretas e pessoais assim e seria inútil escrever qualquer coisa do gênero.
Pesquisei então sobre “computadores” e “internet” para talvez entender melhor o que eram aquelas coisas. Os primeiros resultados me mostraram conceitos como ser uma maquina com capacidade de tratamento de variados tipos de informações e que “internet” era como se fosse vários computadores ligados uns aos outros, saiba lá Deus como isso seja possível, servindo como uma “uma grande rede de compartilhamento de informações”. A analogia que eu fiz em minha mente para conseguir entender melhor foi que computadores seriam como as prateleiras, corredores e salas de uma grande biblioteca e que os livros seriam a internet.
A próxima informação a respeito de computadores me fez desmaiar.
Aquela coisa estava me dizendo que computadores surgiram em meados dos anos 1930, mas eu estava muito ciente de que estava no ano de 1345! Deus do céu, o que estava acontecendo? Olhei novamente para o canto inferior direito da tela e fiquei com medo daquela mesma serie de números e barras: 12/03/2035. Me dei conta que aquele “2035” era o ano que aquela maquina estava datando.
Me ergui da cadeira e comecei a andar de um lado para o outro. Meu Deus do céu, eu comecei a entrar em pânico. Bati em todas as paredes a socos e pontapés. Eu gritei e implorava para acordar, ou para morrer. Como diabos eu estava em 2035? Isso não podia ser verdade, era apenas alguma brincadeira de mau gosto que alguém estava fazendo comigo. Não podia ser outra coisa senão isso.
Em uma atitude desesperada, arregacei as mangas de minha roupa e olhei para a dobra de meus braços. Com um movimento decidido e preciso, mordi com uma força proporcional a dor causada. Sangue escorria de minha boca e pingava no chão cinzento. Com outro movimento preciso, mordi novamente, mas no outro braço. Eu sentia minha cabeça latejar e o sangue se esvair aos poucos de minhas veias. Achei que assim talvez eu conseguisse morrer e acabar com esse pesadelo dos infernos que eu estava vivendo, mas a realidade veio logo depois que eu acordei.
Meus braços doíam, mas de uma forma menos intensa. As feridas foram isoladas com ataduras macias e eu me sentia um pouco mais calmo, como se tivesse tomado um chá de camomila muito mais forte e concentrado. Ainda estava apavorado, mas um pouco mais... Contido? Talvez fosse essa a palavra.
Havia outra refeição que eu comi sem muita vontade, embora fosse tão deliciosa quanto à anterior. Eu estava começando a entrar em um estado de apatia, e simplesmente não sabia o que fazer. Eu tinha medo de ligar aquele computador e receio de tentar ler aquele livro. Passei por algum tempo, que talvez fosse dias, apenas deitado naquela cama e andando de um lado para o outro. O meu tédio era grande mas eu não sabia mais o que era de mim.
Depois daquele interminável período que fiquei sem fazer absolutamente nada naquele inferno, resolvi apanhar aquele livro. Ele havia varias novas paginas com mais informações a respeito do computador. Um fato curioso é que ali dizia para me acalmar, que todas as respostas viriam no momento ideal. Praguejei e segui lendo. Ali também sugeria que eu me encorajasse a continuar explorando aquela maquina, pois por mais que ela parecesse confusa, ilógica e completamente assustadora, o computador era a ferramenta mais poderosa que a humanidade possuía.
Eu olhei para o monitor e senti vontade de virar o rosto. Depois eu encarei aquela coisa novamente. Eu sempre fugi dos meus problemas e das minhas responsabilidades, e agora... Agora eu era obrigado pela primeira vez a encarar um problema muito serio. Estava preso ao meu problema, e eu não podia fugir por mais que tentasse.
Liguei aquela maquina em segundos e comecei a explorar. Estralei os dedos e rasguei as ataduras em meus braços, dando a vista grandes cicatrizes secas. Uma estranha determinação começou a brotar no meu peito, mas ainda assim decidi ter cuidado com esse entusiasmo repentino.
Depois de alguns dias, eu comecei a entender um pouco melhor do que um computador era capaz. Ele podia editar textos e imagens antes mesmo de serem “impressas”, e outras inúmeras finalidades. Com a internet, o acesso a qualquer tipo de informação era incrivelmente pratico e instantâneo, dando uma boa parte das respostas que se tinha a suas perguntas ou duvidas. Através de algumas pesquisas, eu descobri que no atual tempo que eu me encontrava, as coisas eram incrivelmente diferentes. Construções colossais onde viviam pessoas, que se chamava de “edifícios”, lotavam grandes cidades. Outro fato que me apavorou foi o fato de existir maquinas gigantes que eram capazes de voar levando duzentas pessoas ou mais, e viajavam a uma velocidade que era quase difícil de que eu imaginasse.
Outro fato que não me assustou, mas deixou bastante curioso, foi a criação de carruagens sem a necessidade de um cavalo para se locomover, que se chamava “carros” ou “automóveis”. Eram maquinas impressionantes e muito bonitas de um modo um pouco exótico. Mas o que realmente me deixou fascinado foi saber que o mundo na verdade era redondo, que as estações do ano se devem a inclinação da Terra e não da proximidade com o sol, que o mesmo era o centro do nosso sistema planetário e não a Terra, e de que havia um continente imenso do outro lado do oceano chamado “Américas”.
De fato, computador era uma ferramenta extremamente poderosa, principalmente para compartilhar informações. Mas o que me surpreendia era como a humanidade havia evoluído de uma maneira do qual eu nunca imaginaria. Era pavoroso em alguns aspectos, mas em outros, era até mesmo emocionante de se ver.
Mas aí então vieram duas novas paginas.
Acordei certo dia e fui até o livro, que havia uma informação nova para mim, mas era bastante direta e simples: “Procure saber mais sobre as punições da Idade Média”. Dei de ombros e procurei sobre o que aquele livro estava dizendo. Idade Média era a época do qual os estudiosos chamavam o tempo em que eu, em teoria, vivia. Após alguns minutos, eu soltei um grito com o que eu havia lido.
“Berço de Judas”, “Manivela Intestinal”, “Pêra”, “Roda de Desmembramento”... Essas eram algumas das punições que eu havia descoberto que a igreja usava de maneira cruel e inconseqüente nas pessoas, alegando heresia e outras coisas até mesmo muito banais. O pânico de verdade veio ao entender como aquelas coisas funcionavam e como matavam de uma maneira lenta e dolorosa. Deus do céu, eu não conseguia acreditar. A igreja que sempre me prometeu salvação e conforto era uma assassina cruel e tão terrível quanto o demônio que caçava. Questionei até mesmo se o Deus que eu rezava era bondoso e misericordioso como eu havia acreditado até então, ou se tudo isso era obra de homens sádicos e perversos.
No dia seguinte, depois de um sono mal dormido e com pesadelos, novas paginas foram adicionadas e eu percebi que o livro se aproximava do final. Também percebi o quanto minha barba e cabelo estavam grandes, e só naquele momento eu havia me dado conta desse fato, pois estavam tocando as paginas.
Dessa vez havia novamente informações bastante diretas e objetivas: “Saiba um pouco mais sobre A Peste Negra que ocorreu”. Eu fiquei com bastante receio de ir atrás daquelas informações, pois da ultima vez que eu fui atrás dessas informações bastante simples, eu acabei por ter bastante dor de cabeça, mas eu fui mesmo assim. O próprio nome daquilo soava muito sombrio, e eu estava com um mau pressentimento sobre. Quando terminei de ler, eu desliguei o computador e segui para a cama, completamente em choque.
Eu havia notado nos últimos dias antes de vir parar nesse lugar que um rato preto havia cruzado o meu caminho na estrada. Na hora eu não me importei, mas agora o que havia em meu âmago era desespero. Eu não conseguia imaginar setenta e cinco milhões de pessoas, ainda mais esse mesmo numero de mortos. Era a quantidade de pessoas que iriam morrer na Europa, todas com pústulas horrendas e agonizando até a morte os levar. O feudo era um lugar fétido por natureza, e depois de um tempo você se acostuma, mas imaginar o natural fedor da ausência de higiene com o odor de putrefação de pessoas vivas... Deus do céu, isso era horrível demais! Será que era um castigo do Todo Poderoso por usarem seu nome para fazer maldade?
A ânsia de vomito veio ao meu encontro, mas eu não consegui expelir nada. As minhas noites seguintes foram com pesadelos de imagens horrendas e de pessoas agonizando aos poucos antes de morrer. Eu estava naquele lugar fazia sabe lá Deus quanto tempo, pois eu já havia perdido essa noção. Havia visto as coisas boas e ruins que o futuro nos reserva, havia aprendido a usar a ferramenta mais poderosa que a humanidade criou e também degustei as comidas mais deliciosas que eu já havia comido. Mas após tudo isso, porque eu estava naquele lugar? E porque a mim? E qual a circunstancia de me revelar as coisas mais horrendas que a minha época passou, ou passará, já não sei mais dizer em que tempo estou e porque estou aqui. Eu só quero sair ou morrer, pois por mais que fosse excitante, era assustador e cansativo.
Certo dia, eu notei que faltava apenas quatro paginas para o livro se concluir, e me indagava o que ocorreria quando isso acontecesse. Nas duas penúltimas paginas estava escrito que as minhas respostas estavam próximas, e para eu ter só um pouco mais de paciência. Respirei fundo e aceitei. Se de fato faltasse pouco para eu ter alguma resposta, então eu poderia agüentar mais um pouco, afinal, eu já tinha agüentado até aqui.
Quando eu acordei na outra manhã, eu estava confuso.
Meu cabelo e minha barba estavam mais curtos, eu estava na minha antiga cama no meu quarto da mansão de minha família. Ergui as mangas e as cicatrizes da mordida que eu fiz em mim mesmo haviam sumido. Eu havia voltado? Eu acho que sim. Ri com uma intensidade louca e assustadora. Meu irmão estava do meu lado e deu um salto quando despertei.
Ele indagou se eu estava bem, e eu disse que sim, mas não sabia o que estava acontecendo. Meu irmão se silenciou por um instante. Eu comecei a questioná-lo o porquê de estar tão quieto, sendo que eu havia desaparecido por dias. Seu cenho se franziu quando argumentei isso, e logo depois veio sua negação.
Meu sangue ferveu e eu continuei dizendo que eu havia caído do cavalo na noite de Lua vermelha, quando o meu filho iria nascer. Ele negou isso novamente, e eu me levantei da cama. Comecei a vomitar tudo o que havia acontecido, falei do quarto cinzento, do livro, do computador, de tudo. Meu irmão se afastou de mim com os olhos arregalados. O padre do qual tomava conta da igreja do feudo abriu a porta de meu quarto, com uma expressão tão espantosa quanto a de meu irmão.
“Eu acho que ver o filho daquele jeito foi demais para ele...”, disse o padre com um tom de desdém na voz e meu irmão assentiu. “Sim, eu acho que meu irmão ficou louco.”
Enfureci e sai do quarto a passos pesados. Estava exclamando e exigindo para ver o meu filho no mesmo momento. Os dois homens me acompanharam pelos corredores, bastante preocupados, e isso aumentava minha raiva. Quando abri a porta do quarto que a minha esposa deu a luz, procurei pela criança. Ela repousava sob um berço de carvalho e meu irmão tentou me conter, mas o empurrei para o lado com o ombro.
Eu não estava entendendo o pequeno monstro que havia naquele berço. Uma criança tão defeituosa que eu não acreditei que fosse um ser humano, ainda mais que fosse meu filho. Eu não consigo nem por em palavras a cena horrenda que eu via naqueles lençóis brancos.
O padre veio com a mão em meu ombro. Ele argumentou que era compreensível que eu tivesse ficado louco depois de ver que o primogênito nasceu completamente “estragado”, mas que Deus sabia o que fazia. Eu ri com esse ultimo comentário, enquanto tirava a mão daquele homem de mim.
“O mesmo Deus que tortura por motivos banais é o que me deu um monstro como filho? É esse Deus miserável que sabe o que faz? Imagina se não soubesse, afinal milhares vão morrer porque ‘Ele sabe o que faz’. Eu vi o que a humanidade vai conseguir, vi como será o continente do outro lado do oceano e vi também como nós iremos evoluir. E tudo foi graças a nós, e não a um desgraçado de um Deus, pois ele quer que a gente se foda!”
Os homens ali estavam chocados. Meu irmão desabou de joelhos no chão, e o padre ficou sem fala. Meu pai adentrava o quarto quando eu terminava minha blasfêmia. Eu ri novamente de uma maneira assustadoramente satisfatória e histérica. O pobre padre começou a rezar de joelhos no chão do quarto e meu pai estava ordenando alguma coisa para os guardas da mansão.
Eu segui rindo durante todo o trajeto que haviam me arrastado, e eu nem mesmo notei para onde eu iria ser levado. Talvez para um calabouço da igreja, ou para algum lugar qualquer. Da janela de minha cela, eu podia ver dois grandes ratos pretos passando correndo. Pequenas pulgas saiam de seus movimentos, e eu sabia que a peste estava chegando. Veio varias vezes o padre pedir para eu me confessar, mas eu neguei com todas as minhas forças. Eu sabia que seria torturado em breve, e que depois disso seria queimado vivo, mas eu de certa forma não me importava.
Depois de poucos dias, notei pústulas nas mãos de meu carcereiro e soube que a peste havia começado e que muitos iriam morrer. Eu não iria viver para vê-la dizimar as pessoas, e de certa forma me sinto um pouco grato por isso. O padre veio com uma pequena chibata e me “puniu” na ultima vez que esteve aqui. Eu não irei durar muito, então deixei tudo escrito aqui o que aconteceu comigo e o que está por vir. Eu não sei, mas talvez isso seja culpa da Lua... Aquela maldita Lua Vermelha que eu avistei quando tudo começou.



Espero que essas escritas sobrevivam tempo o bastante para alguém ler e quem sabe tentar fazer alguma coisa a respeito, mas eu morrerei em breve e deixo essa historia como uma forma de deixar minha consciência mais leve antes de partir. Só tome cuidado com as feridas abertas, com os ratos pretos, com a ira de “Deus”, e principalmente, com aquela maldita Lua Vermelha.

Conto ótimo, vi lá na Oficina dos Horrores

30 de jul de 2015

Betsy, a boneca

Assim como muitas pessoas, eu tive uma infância triste. Quem não tem, hoje em dia? Meu pai saiu de casa antes de eu nascer e minha mãe estava drogada quando me trouxe para casa. Ela rapidamente voltou ao seu estilo de vida festeiro e transformou nosso apartamento numa toca do ópio. Eu andei por uma neblina cheia de drogas durante os 5 primeiros anos de vida. Aquele ar cheio de fumaça enchia os corredores, passando por baixo da minha porta parecendo que ficava impregnado lá por dias.

Minha mãe não era uma má pessoa, era só uma vítima de seus vícios. Quando ela tinha dinheiro extra, trazia comida pra casa e, às vezes, me trazia roupas da Goodwill. Os únicos móveis que eu tinha no meu quarto eram a base da cama com um colchão e um pequeno baú de brinquedos azul e branco. Não que eu tivesse muitos brinquedos pra colocar dentro dele, só os 3 que eu tinha ganho em meus aniversários: um era um kit de arte, um vagão de trem vermelho e, meu brinquedo mais importante, uma boneca chamada Betsy.

Betsy era minha melhor amiga. Fazíamos lanches da tarde imaginários juntas, dormíamos juntas, tomávamos banho juntas e, algumas vezes, eu lembro que ela falava comigo.

Pensar em Betsy na durante minha vida adulta me fez pensar que eu era uma criança seriamente traumatizada, que estava constantemente drogada e, por isso, minhas memórias eram extremamente duvidosas. Ainda consigo lembrar do som da voz dela, uma vozinha que tilintava com uma certa melodia. E também me lembro das coisas que ela me pedia pra fazer. Roubar comida pra ela. Pegar garfos e facas pra ela. Bater no homem mau que dormia em nossa cama. Sempre coisas ruins que me traziam problemas. Eu culpava a Betsy mas ela nunca acreditava em mim. Adultos nunca acreditam.

Por volta do meu sexto aniversário eu pedi pra minha mãe fazer uma festa pra mim. Eu queria convidar as meninas chatas da minha escola, servir-lhes bolo e fazê-las gostarem de mim. Eu ainda lembro de quando fiquei em pé na cozinha bastante esperançosa, com uma garrafa de vidro de refrigerante na minha mão, enquanto aguardava a resposta de minha mãe. Ela virou pra mim e riu.

-Uma festa de aniversário? Laura, isso é ridículo. Não tenho dinheiro pra alimentar 15 outras crianças que não são nem minhas - mal consigo alimentar você! Você come que nem um elefante, ou melhor, a Betsy come. Eu quase não tenho o que comer aqui!

Ela balançou a cabeça, murmurou alguma coisa e saiu da cozinha. Eu ouvia o volume da música na sala aumentando ao passo que várias pessoas entravam na casa. Algumas saíam, outras ficavam. Eu não conhecia nenhuma delas. Minha mãe dava festas o tempo todo, por quê eu não podia? Eu era uma criança, todas as outras faziam festas e agora as meninas chatas da minha escola agora saberiam que eu era tão pobre que não conseguia nem fazer festas de aniversário, o que faria elas me irritarem ainda mais.

Eu senti lágrimas crescendo em meus olhos, corri pro meu quarto e bati a porta. Betsy estava deitada na cama, sorrindo. Ela estava sempre sorrindo, como eu poderia esquecer? Apenas me encarando, sorrindo. Ela ia me pedir pra fazer algo de ruim, como roubar ainda mais comida ou pior. Isso tudo era culpa dela. Betsy não precisava ir à escola e nem se encrencava que nem eu e, na minha mente de criança de 5 anos, eu realmente acreditava que era a boneca quem me trazia todas as minhas aflições, não minha mãe.

Eu gritei de raiva e joguei a garrafa com todas as minhas forças na cama. A garrafa acertou Betsy, que caiu no chão. Comecei a rir. Peguei ela, a levei até o banheiro e joguei-a na banheira, que sempre tinha água, devido ao fato de os canos de casa estarem todos entupidos. É claro, ela não se movimentou enquanto estava debaixo d'água, mas jogá-la lá fez com que eu me sentisse melhor. Alguns minutos depois, quando eu tinha acabado de descontar minha raiva no meu brinquedo favorito, eu o joguei no baú de brinquedos do meu quarto e fechei a tampa com força. Chutei o baú em direção à parede; nunca queria ver Betsy novamente.

Nunca tive outra boneca depois disso. Mais ou menos uma semana depois de tudo isso, a polícia apareceu e duas boas mulheres me levaram para uma nova casa em outro estado, com comida, brinquedos e sem drogas. O baú com os brinquedos foi levado embora e eu nunca vi minha mãe de novo. Conforme fui ficando mais velha, minhas mães adotivas me contaram que minha mãe biológica estava na cadeia, cumprindo 25 anos de pena. Eu não senti nada por ela pois, de qualquer forma, eu ainda tinha pesadelos por causa daquela vida que eu tinha. Comecei a focar nos estudos e a ignorar as cartas que minha mãe me mandava da prisão. Ela me ligou várias vezes durante minha adolescência, mas eu sempre recusava as chamadas.

Isto é, até esta manhã. Estou com 30 anos de idade agora, tenho meus próprios filhos e um marido que me ama profundamente. Tenho uma linda casa, com 2 cachorros e uma carreira de assistente social, tentando fazer a diferença na vida das crianças que vivem do mesmo jeito que eu vivi na minha infância. Então quando recebi uma mensagem de voz da minha mãe falando que ela estava sob condicional e queria falar comigo, me senti estável o suficiente para deixá-la dizer o que tinha pra dizer.

Assim que as crianças chegaram da escola, eu fui pra barraca que temos no quintal para retornar a chamada de minha mãe. A barraca era domínio das crianças, elas a usavam para brincar no verão. Sentei em cima do meu velho baú de brinquedos, que, agora, estava sendo usado como mesinha pra lanches e disquei o número que ela havia me dado.

Três sons.

-Oi? Laura?

-Oi, mãe. Como você está?

-Ah, Laura, obrigado por me ligar. Eu sei que agora você tem sua própria vida e uma família agora. Eu adoraria conhecê-los algum dia! Eu só queria dizer o quanto eu sinto. Por tudo.

-Você NUNCA vai conhecer meus filhos. Eu vou dizer o que tenho pra dizer, também. As drogas te destruíram e me levaram com você. Sinceramente, eu estou surpresa com o tempo que levou para a polícia te pegar.

-Não entendo o que você quer dizer com "me pegar", Laura, de verdade, eu não sei de nada! Olha, isso mal importa. Eu entendo o porquê de você se sentir dessa maneira. O porquê de você me odiar e não querer que eu veja seus filhos. Enquanto eu estava longe, aprendi muito sobre Jesus e sobre perdão... e, Laura, sinto muito pela Betsy.

-Betsy? - eu perguntei, confusa - Por quê você se importaria com ela?

-Eu sei, eu sei, Laura, acredite em mim. As drogas foram tudo culpa minha. E a Betsy, meu Deus, se eu tivesse conseguido ver através da neblina, se eu soubesse. Agora ela se foi pra sempre e é tudo culpa minha.

Enquanto minha mãe começava a chorar, eu batia meu dedos na caixa, impacientemente. Aquelas drogas tinham mesmo fritado o cérebro dela.

-Mãe, por quê você está falando da Betsy? Por quê você se importa com ela? E, a propósito, eu sei onde ela está.

-Você sabe?! Do que você está falando, Laura? Onde ela está?!

Eu pulei da caixa em desconforto, mas logo voltei a sentar em cima dela.
-Betsy está no baú.

Eu sinceramente achei que ela tinha desligado o telefone, eu não ouvi nada do outro lado, nem mesmo o respirar de minha mãe.

-.....O que você tá querendo dizer falando que sua irmã está no baú?

-Irmã?! Que merda você está falando? Voltou com as drogas de novo, mãe? Betsy é uma boneca, porra! Eu tranquei ela na caixa de brinquedos pouco antes de você ir presa por porte de drogas.

-Laura... oh, Deus, não... não... Laura, eu não fui presa por causa das drogas, eu fui presa pelo desaparecimento de Betsy! Você sempre chamou ela de "bonequinha", mas todos achávamos que você sabia... Oh, Deus, o que você fez, Laura? O que você fez com meu bebê?!

Sem emoção, eu coloquei o telefone do meu lado e levantei. Eu podia ouvir os gritos distantes de angústia da minha mãe e sentir o aperto da agonia no meu próprio peito. Memórias se agitavam nos confins da minha mente ameaçando voltar, inundando minha consciência, empurrando uma porta dentro da minha cabeça, uma porta que estava trancada há tanto tempo que esqueci que ela existia.

Será que o trauma e as drogas realmente me fizeram acreditar que uma criança pequena era, de verdade, uma boneca? Pedindo comida, utensílios para comer, me pedindo para lhe proteger do homem mau...

Não....

Eu virei de costas lentamente e olhei para o baú. Certamente era pequena demais, uma pessoa não caberia lá dentro. Não caberia. Mas será que uma criança pequena quase morta de fome, esquelética, caberia? Se eu fosse um detetive eu nunca pensaria em olhar dentro desse baú. Era simplesmente pequena demais.

Eu me ajoelhei e abri os fechos do baú. Seria melhor não olhar. Tudo o que eu tinha superado, toda essa vida nova que construí pra mim. Tudo poderia ser desfeito ao abrir esse baú. Eu não devia abrir. Eu devia jogá-lo num lixão e esquecer que ele existiu. Eu não devo olhar dentro dele...

Abri o baú.

Eu nunca tive uma boneca. Minha mãe não tinha dinheiro pra comprar uma pra mim. Mas eu tinha um baú de brinquedos. Um baú azul e branco lindo. E, quando eu tinha 5 anos, eu afoguei minha irmã e a joguei no baú. E agora minha vida está acabada.